Crestomatia de Quarta (Feira) A partir de hoje, terei o prazer de enviar semanalmente `a PT-NET, com a maior regularidade possi'vel, um texto do acervo portugue^s, partilhando com os "pt-neteiros" o prazer de sua leitura. Os textos serao preponderantemente em prosa, de cara'cter ficcional. Tendo em conta a necessidade de se comunicarem tambe'm conteu'dos desconhecidos aos leitores inicialmente visados, a a'rea de nao-ficcao sera' igualmente representada: a maioria de textos serviu de apoio aos meus estudantes de portugue^s. E por isso o ti'tulo de crestomatia, e nao de antologia, tendo em conta o valor etimolo'gico dos dois termos e o significado de utilidade no primeiro.. A presente crestomatia nao tem por objectivo a exaustividade: as condicoes em que nasceu nao o permitiriam, mesmo se tivesse tais pretensoes. A te'cnica de publicacao, baseada nas fotoco'pias, foi um dos factores objectivos que tambe'm influenciou o seu perfil: as circunsta^ncias mais que preca'rias que vivemos restringiram as possibilidades de escolha de autores e textos e de sua apresentacao. O objectivo essencial desta crestomatia e' fornecer aos estudantes do curso de Estudos Livres de Li'ngua e Literatura Portuguesa, desta Faculdade de Letras da Universidade de Zagreb, um instrumento de trabalho em que terao disponi'veis os textos em portugue^s, de acesso difi'cil nas circunsta^ncias actuais em que procuram aprender a dominar a li'ngua portuguesa. Ela pretende ser-lhes u'til nao apenas do ponto de vista formal, mas tambe'm como vei'culo de conteu'dos que os aproximam do mundo luso'fono. Alguns dos textos sao completos, enquanto outros se apresentam apenas em fragmentos. Todas as notas de rodape' sao de minha autoria. As notas que existiam nos originais foram reintegradas no texto, inseridas entre pare^nteses em si'tios adequados. Qualquer sugestao relativamente `a escolha e eventual insercao de autores ou textos e' mais que bem-vinda e provocara' um sentimento agrada'vel de apoio e acholhimento: `as vezes e' inevita'vel a pergunta se o esforco investido em tudo isso vale a pena. O sistema gra'fico adaptado para a colocacao de textos `a rede e' de fa'cil compreensao: os diacri'ticos (menos o til e a cedilha que desapareceram ) sao colocados depois do cara'cter em que seriam escritos no texto impresso e no caso do acento grave antes do cara'cter. Deste modo, se algue'm preferir ficar com a variante impressa, facilmente podera' no processador de texto que utiliza escrever um macro para realizar todas as substituicoes necessa'rias. Penso aqui sobretudo nos leitores de portugue^s no mundo, a que as colecta^neas em lusa li'ngua de tipo semelhante sempre fazem falta. Assim como sempre faziam falta ao nosso leitor, ate' que o entao ICALP o deixou de enviar a Zagreb, cortanto simultaneamente o envio de qualquer publicacao. Zelimir Brala Crestomatia de Quarta Feira (6) ------------------------------------------------------------------------ Almeida Garett Viagens na minha terra Eram dadas cinco da tarde, a calma declinava, montámos a cavalo, e cortámos por entre os viçosos pâmpanos que sao a glória e a beleza do Cartaxo; as mulinhas tinham refrescado e tomado ânimo; breve, nos achámos em plena charneca. Bela e vasta planície! Desafogada dos raios do Sol, como ela se desenha aí no horizonte tao suavemente! que delicioso aroma selvagem que exalam estas plantas, acres e tenazes de vida, que a cobrem, e que resistem verdes e viçosas a um sol português de Julho! A doçura que mete na alma a vista refrigerante de uma jovem seara do Ribatejo nos primeiros dias de Abril, ondulando lascivamente com a brisa temperada da Primavera, - a amenidade bucólica de um campo minhoto de milho, à hora da rega, por meados de Agosto, a ver-se-lhe pular os caules com a água que lhe anda por pé, e à roda as carvalheiras classicamente desposadas com a vide coberta de racimos pretos - sao ambos esses quadros de uma poesia tao graciosa e cheia de mimo, que nunca a dei por bem traduzida nos melhores versos de Teócrito ou de Virgílio, nas melhores prosas de Gessner ou de Rodrigues Lobo. A majestade sombria e solene de um bosque antigo e copado, o silêncio e escuridao de suas moitas mais fechadas, o abrigo solitário de suas clareiras, tudo é grandioso, sublime, inspirador de elevados pensamentos. Medita-se ali por força; isola-se a alma dos sentidos pelo suave adormecimento em que eles caem... e Deus, a eternidade - as primitivas e inatas ideias do homem - ficam únicas no seu pensamento... É assim. Mas um rochedo em que me eu sente ao pôr do sol na gandra erma e selvagem, vestida apenas de pastio bravo, baixo e tosquiado rente pela boca do gado - diz-me coisas da terra e do céu que nenhum outro espectáculo me diz na natureza. Há um vago, um indeciso, um vaporoso naquele quadro que não tem nenhum outro. Não é o sublime da montanha, nem o augusto do bosque, nem o ameno do vale. Não há aí nada que se determine bem, que se possa definir positivamente. Há a solidao que é uma ideia negativa... Eu amo a charneca. E não sou romanesco. Romântico, Deus me livre de o ser - ao menos, o que na algaravia de hoje se entende por essa palavra. Ora a charneca denter Cartaxo e Santarém, àquela hora que a passámos, começava a ter esse tom, e a achar-lhe eu esse encanto indefinível. Sentia-me disposto a fazer versos... a quê? Não sei. Felizmente que não estava só; e escapei de mais essa caturrice. Mas foi como se os fizesse, os versos, como se os estivesse fazendo, porque me deixei cair num verdadeiro estado poético de distraccao, de mudez - cessou-me a vida toda de relacao, e não sentia existir senao por dentro. De repente acordou-me do letargo uma voz que bradou: - "Foi aqui!... aqui é que foi, não há dúvida." - "A última revista do imperador." - "A última revista! Como assim a última revista! Quando? Pois?..." Entao caí completamente em mim, e recordei-me, com amargura e desconsolacao, dos tremendos sacrifícios a que foi condenada esta geracao, Deus sabe para quê - Deus sabe se para expiar as faltas de nossos passados, se para comprar a felicidade de nossos vindouros... O certo é que ali com efeito passara o imperador D. Pedro a sua úilitma revista ao exército liberal. Foi depois da batalha de Almoster, uma das mais lidadas e das mais ensaguentadas daquela triste guerra. Toda a guerra civil é triste. E é difícil dizer para quem mais triste, se para o vencedor ou para o vencido. Ponham de parte questôes individuais, e examinem de boa-fé: verao que, na totalidade de cada faccao em que a Nacao se dividiu, os ganhos, se os houve para quem venceu, não balançam os padecimentos, os sacrifícios do passado, e menos que tudo, a responsabilidade pelo futuro... Eu não sou filósofo. Aos olhos do filósofo, a guerra civil e a guerra estrangeira, tudo sao guerras que ele condena - e não mais uma do que a outra... a não ser Hobbes o dito filósofo, o que é coisa muito diferente. Mas não sou filósofo, eu: estive no campo de Waterloo, sentei-me ao pé do Leao de bronze sobre aquele monte de terra amassado com o sangue de tantos mil, vi - e eram passados vinte anos - vi luzir ainda pela campina os ossos brancos das vítimas que ali se imolaram a não sei quê... Os povos disseram que à liberdade, os reis que à realeza... Nenhuma delas ganhou muito, nem para muito tempo com a tal vitória... Mas deixemos isso. Estive ali, e senti bater-me o coracao com essas recordaçoes, com essas memórias dos grandes feitos e gentilezas que ali se obraram. Porque será que aqui não sinto senao tristeza? Porque lutas fratricidas não podem inspirar outro sentimento e porque... Eu moía comigo só estas amargas reflexoes, e toda a beleza da charneca desapareceu diante de mim. Nesta desagradável disposicao de ânimo chegámos à ponte da Asseca. Zelimir Brala Crestomatia de Quarta Feira (7) ------------------------------------------------------------------------ Fausto Lopo de Carvalho Um instante na eternidade Nunca soube que história era aquela do coelho. Mais tarde, numa das poucas caçadas em que participou com alguns amigos, num couto, propriedade de grande senhor da regiao, matou, pela primeira e última vez, dois coelhos. Diziam os comparsas que ele tinha jeito, era um bom ferro, logo à primeira, dois coelhos. Pois, confirmava pouco entusiasmado, dois coelhos e olhou para Mercedes que por ali andava também com uma espingarda, fingindo caçar. Veio o batedor, que não senhor, não eram dois, eram três, pois matara à paulada um deles que já trazia uma pata ferida por um tiro. Pronto, entao seriam três. Mercedes disse-lhe que parecia impossível. Ele, tao generoso, matar três coelhos! Ainda não se tinha passado a cena do quarto, quando ela se sentou na cama: também estariam longe ainda os tempos quando ele ia a casa dela conversar, ao fim da tarde. E quem era essa Mercedes que fora com ele à caça e com ele conversava aos fins da tarde? Solteira, vivendo só, recolhendo os rendimentos da herança do pai. Não se lhe conhecia marido, amores, devaneios de qualquer espécie. Mas realmente matar três coelhos era de mais. E a criada, que lhe dissera parecer-se ele com um coelho, no decorrer do tempo, nos encontros partilhados entre ele e o primo Ramsés II, já ia apreciando mais requintadamente os seus ímpetos, e confessando exausta não poder mais, que tinha os rins num figo. É claro, ficou grávida. Como havia de ser, como não havia de ser. Que grande sarilho. Ao que tinha levado o desafio do coelho! Estabeleceu um acordo com Ramsés II, pois seria de um pois seria do outro, e obtiveram o apoio logístico da velha governanta da casa, que ai estes meninos, que marotos, e ela é uma desavergonhada, e se calhar é do sargento de Artilharia I, que sai na sua companhia às tardes dos domingos, se a mãezinha e se o paizinho sabem, como há-de ser meu Deus. Vieram primeiro as pílulas da farmácia do senhor Tadeu, considerado perito no desfazer de sarilhos daquela natureza. Nada! Tudo na mesma; a criada andava agoniada, tinha tonturas, o que não a coibia de satisfazer os ardores dos meninos, já agora, perdida por um perdida por mil, tanto fazia, mais a mais o sargento de Artilharia I continuava a sair com ela aos domingos. Recorreu ao padre amigo do Pedro, seu padrinho e que, segundo diziam, era progressista mas deveria ser uma boa qualidade. O padre levou as maos à cabeça. Que desgraça, que miséria, valha-nos o Senhor. Desmanchos? Não, isso nunca. Matar um ser humano? Um embriao? E foram muitas vezes? Ele, o primo e o sargento? E ela é jovem, é jeitosa, é ardente? Que Deus nos perdoe, pois não faltava mais nada, um filho, o escândalo, o remorso da consciência. De quem? Pois de quem? Podia também ser do sargento. Mas ela era mesmo jovem? Jesus, que pecado. E ardente? Santo Deus, que tentacao. Bem, em resumo, ele padre não aconselhava o aborto, era contra a lei de Deus. Mas o problema era dele, pecador, que consultasse a sua consciência. É claro, não aconselhava, mas ele é que sabia e Deus sempre ia perdoando os pecados. Obtida, assim, a neutralidade da Igreja perante as misérias deste mundo, recorreu ao apoio do tio Alexandre, que ficou acabrunhado, aflito, e receoso. Que diabo, que sarilho. Logo três, era de força. Três, isto é, foram! Quem teria sido o primeiro? Ele também matara três coelhos, mas foi mais tarde. Pois. Entao ele, tio Alexandre, tinha uma empregada amiga de uma parteira que, segundo diziam, era de uma competência a toda a prova. E a governanta, de harmonia com as indicaçoes da empregada do tio Alexandre, e com a neutra cumplicidade do padre, padrinho do Pedro, arranjou uma desculpa à senhora e levou-a à parteira e foi um ar que lhe deu! O tio Alexandre pagou, a governanta respirou fundo, a Igreja perdoou e a rapariga foi despedida, directa para os braços de outros meninos, como é habitual nestas situaçoes, não excluindo as tardes de domingo com o sargento de Artilharia I, como convinha aos hábitos burgueses e à boa consciência das famílias bem formadas. Zelimir Brala Crestomatia de Quarta (Feira) (12) ------------------------------------------------------------------------ Vergílio Ferreira Mãe Genoveva Todas as tardes ela vinha com o cesto da costura para o sol do corredor, se a tarde era de Inverno, ou para a sombra da figueira, se era nos calores do Verão. Ali estava agora, direita ainda, frente ao vento da tarde funda de Agosto, um vento largo e calmo de céu e de montanha. Mas tão grande era a certeza de sossego à sua volta, tão aberta de paz e de sinal, que a cabeça lhe tombou para o tronco da figueira e as mãos e os olhos se entregaram à unção de uma morte merecida. Quanto tempo? Abriu os olhos e sentiu-se verdadeira no seu corpo fatigado, como fora verdadeira toda a dor que conquistara. - Mãe Genoveva! Há quanto tempo? Um dia, ele voltara da fábrica mais cedo que de costume. Tinha as mãos certas, o olhar certo, uma certeza tão presente em todo o seu corpo forte, que era quase como se não tivesse um destino. Assim Genoveva o foi esperar ao limite mais extremo da sua confiança, serena, branca e loura, alta e loura como a glória. E tendo-se apenas fitado longamente um ao outro, reconheceram-se por detrás da sucessão dos séculos, húmidos de origem, infindáveis de apelo, como tocados, para sempre, de um esquecido indício divino. - Vicente! Depois veio o Inverno e a baba do vento e as noites sem fundo como o capuz de um condenado. A montanha espadaúda combateu brutamente contra o céu, caíram sobre o mundo tumultos de trovoadas, chuvas e nevoeiros esmagaram a terra de pavor. Mas havia para Genoveva, no centro de tudo isso, uma oculta defesa, não bem contra o perigo do céu e da montanha, não bem contra o terror do mistério, mas contra uma pálida suspeita de morte, que se alongava pelas noites solitárias. Vicente dizia-lhe que uma nova fiação ia ser posta a trabalhar ou que se falava em aumentar a féria, ou até mesmo que sentia o corpo fatigado. E tudo isto, saído da sua boca, era tão forte de perfeição e de verdade, tão como o bafo quente de quem nos aconchega a roupa, que o mais era a memória de um pesadelo morto. Assim, como toda a sua vida falava de promessa e de futuro, quando depois do Inverno voltou a Primavera e, depois da Primavera e do Verão, o Outono lhes trouxe um filho, ela não se surpeendeu. Só o marido pareceu embaraçado de medo e deslumbramento, diante de um prodígio maior do que ele e que, no entanto, incrivelmente, tinha o destino do seu sangue e sua raça. Ou talvez que nesse olhar longo e calado em que envolvera o filho, ele quisesse apenas trasvasar-lhe tudo quanto julgava não lhe ter dado ao nascer; porque, dez dias depois, o correão do tambor das cardas apanhava-o pelo casaco e arremessava-o contra os caibros do tecto. Três vezes o corpo desconjuntado de Vicente atravessou o espaço, três vezes os companheiros clamaram sobre o estrépito das máquinas. Quando, por fim, alguém parou o motor, Vicente foi desprendido da correia e deitado em silêncio no chão. Tinha os ossos todos britados, o corpo numa papa sangrenta. E tão desfigurado de tortura e de sangue, que os companheiros não ousavam reconhecê-lo nem tocá-lo. Só as mãos seguras da mulher, tão certas como se as não comandasse, conheciam o lugar da sua boca, dos seus olhos e do seu olhar. E pousando-as longamente naquela face destruída, aí as esqueceu, confraternizando com o sangue, como se esperasse que Vicente adormecesse enfim, ou que ela fosse investida, de algum modo, numa parte daquele sofrimento. Depois partiu dali desvairada, atirada num grito, e precipitou-se, com um ciúme assassino, sobre o filho que era seu. E subjugada pela voz absoluta da morte e da criação, o amor ao filho grudava-a a si própria, atirava-a contra o futuro como uma força escura da terra. Só três meses depois, corroída de cansaço, consentiu que um senhor que lhe viera pôr na mesa um envelope fechado, lhe levasse o filho, o registasse, o baptizasse e lho trouxesse, enfim, com o nome inteiro do pai. Só depois consentiu que a vida recomeçasse. Já o vasto silêncio do Inverno caía de novo sobre a aldeia e o vale. Era agora uma lúcida aridez de prados de gelo, uma alegria mortal de longas neves, como a inocência de um cadáver de criança em urna branca, era o sol rápido e triste, os cavernosos urros da tormenta. Mas agora tudo clamava, duramente, pela angústia de Genoveva, perseguindo-lhe os dias e as noites. E umas vezes chorando sobre o filho, com o desespero de um amor impotente e desgraçado, investindo, outras vezes, de coragem alta, contra o ódio da morte, a promessa renasceu-lhe finalmente no coração. Contava os dias nos segundos, pelo esforço dos trabalhos avulsos - casas lavadas, carregos, sol a sol no campo - com o suor da sua entrega pedido a cada parte de si. Mas, repentinamente, a virgindade de um mundo nasceu em roda do filho. Com uma voz que já não era a dela nem a do silêncio indefeso da criança, surgiu um dia, ali, diante de si, na certeza irrevogável dos muros negros da casa, a enorme verdade de um ser que falava, que pedia, que pensava. De si até ao filho, ia agora o milagre de uma fraternidade nova, ia quase uma surpresa de dois ausentes que se encontram, como aquela que Genoveva sentira em face do marido, quando reconheceu que o amava. Com um espanto que nunca supusera, ela via crescer, à sua face, o prodígio de um deus que impetuosamente recriava a terra e os céus. O pequeno dizia "mãe", "pão", "lua", e a lua e o pão e ela própria existiam realmente, levantavam-se para a vida pela primeira vez, ou surgiam tão diferentes e tão novos que era como se só então tivessem sido criados. Porque a lua era o apelo de uma inocência inteira, e não um cansaço do fim; o pão, apenas uma forma que se cumpre, e não um ódio necessário; e tão nova era agora nela a verdade de ser mãe, porque tão-só ela e tão a medo até agora o soubera, que Genoveva se curvou de humildade e gratidão, diante de si e do filho, como um mistério de uma vontade divina anunciada. Antologia do Conto Português Contemporâneo, selecção, prefácio e notas biobibliográficas de Álvaro Salema, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Ministério da Educação, Lisboa 1984, pp. 151-153 Zelimir Brala Crestomatia de Quarta Feira (13) ------------------------------------------------------------------------ Domingos Monteiro Ressurreição A mulher tirou as maos debaixo do avental e perguntou numa voz despida de qualquer inflexao amável: - O que deseja? - Depois, atentando melhor na figura miserável do interlocutor, acrescentou, asperamente elucidativa: - A entrada não é por aqui, é pela escada de serviço... Mas o homem não despegava. Tinha uma teimosia humilde e inabalável: - Quero falar ao senhor... Ele é que me mandou entrar... - A si? - Havia uma ironia maldosa na interrogacao. - Ah, ele manda chamar muita gente e depois não a recebe... Às vezes é uma romaria... Calou-se um instante e fixou o homem. Nos olhos dele havia uma doçura atenta e compassiva. Parecia-lhe que aquele homem, com o fato remendado, o cabelo rapado, as alpercatas rotas, a tiritar de frio, o ar clássico do vagabundo das estradas, estava com pena dela. Sentiu-se chocada e, ao mesmo tempo, intimidada. A sua vaidade agressiva de porteira de casa rica, diluira-se. Pensou que era absurdo, que era o contrário do que devia ser, mas aquele homem estava com pena dela. Teve um sobressalto de vergonha e inquiriu quase humilde: - É por causa de algum anúncio, não é? - Sim, um anúncio a chamar por mim... Não o li, que não sei ler nem escrever. Foi um companheiro que me disse... - E quem digo ao senhor que é? - Diga-lhe que é Nosso Senhor Jesus Cristo. A mulher afastou-se deixando a porta entreaberta. O homem ouviu o ruído de passos no corredor e dopois bater a uma porta. - Está aqui um homem que quer falar com V. Ex..a. - Quem é? - Diz que é Nosso Snehor Jesus Cristo. - Não conheço... Houve um instante de silêncio e depois, alguém gritou de dentro: - Ah, já sei... Espere... Mande entrar. - Por aqui... Foi guiando os passos do homem até à porta do fundo. - Já aqui está. - Que entre... O pintor ficou a olhar para o homem que acabava de chegar e desatou a rir. - Essa é boa! Essa é muito boa!... Entao você julga que... Vestia com o trajo dos artistas de Montmartre - casaco de veludo, o cachimbo ao canto da boca, numa das maos a paleta, e, na outra, pincel. A luz entrava diluída pela cúpula envidraçada do atelier, e caía em cheio sobre o modelo. Estava nua, apenas com um ligeiro sendal a envolver-lhe a cintura e o cabelo negro e comprido atirado para a frente a aflorar as pontas dos seios. Via-se que era uma pose procurada e um pouco artificial. Ironicamente, o pintor fez as apresentaçoes: - O Cristo... A Madalena... - Ó filho, deixa-te de graças... Fecha mas é a porta que estou com frio. Nos lábios deslizou-lhe um sorriso, ao mesmo tempo, impúdico e contrafeito: - Posso vestir-me? - Podes. Num gesto lento foi fechar a porta. - A mim sucede-me cada uma... - Virou-se para o homem e inquiriu: - Você veio por causa do anúncio? Com certeza? Do anúncio em que eu pedia um modelo para o Cristo da minha alegoria: "Nosso Senhor voltou ao mundo"?... - Sim Senhor. - E você, com esses cabelos cortados à escovinha, as barbas rapadas, supunha-se nas condiçoes? Ou pensa que basta ter fome, ter o rosto esquálido e os olhos lânguidos e sonhadores? - Estava agora junto dele e fitava-o curiosamente: - Foi a necessidade apenas que o trouxe, ou quê? Se eu pusesse um anúncio para me passear o cao, você também aparecia, não é verdade? - A voz compadeceu-se: - Eu bem sei que a necessidade não tem lei e é um topa-a-tudo. Em todo o caso... Espere... Ó Zulmira, vem cá... A cabeça da rapariga assomou por detrás do biombo onde estava a vestir-se. - Já vou... Aproximou-se vagarosamente. Vestida, tornara-se numa rapariguinha da cidade, quase insignificante. Uma espécie de vergonha travava-lhe os passos. - Anda cá ver - gritou impaciente. - Tu já viste alguma vez uns olhos assim? - Sentia-se que estava impressionado. - É curioso! Repara bem... Tem o fulgor dos olhos dos grandes iniciados... E a boca, ahn? Que energia e que candura, ao mesmo tempo... E o queixo? Repara bem no vigor e na doçura desta linha... - O entusiasmo caiu-lhe de repente. - Mas sem barba e sem cabelo, nada feito. Não lhe vou pôr uma barba e um cabelo postiços, nem vou imaginá-las... Sou um realista, percebeu?... Preciso de ver e palpar... Só sei pintar assim: com pelos, com carnes, com sangue... Estava encolerizado. - Ó seu idiota!... Porque é que você rapou o cabelo e cortou as barbas? - Não fui eu, foram eles... - Eles, quem? - Eles, os guardas. Falava numa voz clara e harmoniosa, a voz bíblica das parábolas. Antologia do Conto Português Contemporâneo, seleccão, prefácio e notas biobibliográficas de Álvaro Salema, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Ministério da Educação, Lisboa 1984, pp. 99-101 Zelimir Brala Crestomatia de Quarta Feira (14) ------------------------------------------------------------------------ Clara Pinto Correia Domingo de Ramos Três dias depois acorámos com o rádio a dar as mais inacreditáveis notícias e o trânsito de barcos no Tejo completamente cortado. Apareceu alguém que tinha binóculos e fomos para o terraço de cima do prédio, onde se estendiam os lençóis e se guardavam os triciclos de plástico, ver as movimentaçoes no Terreiro do Paço. Não comi nada. Nunca me lembro de ter beijado tanta gente tantas vezes. Foi nesse dia que comecei a fumar. Depois foi tudo muito rápido. Sentámo-nos na encosta que dava para Caxias e esperámos pelos dois membros do coro que tinham sido presos. Estavam lá muitos outros grupos, à espera de muitos outros presos. Uns choravam. Outros faziam discursos. Outros cantavam, e outros rezavam o Pai Nosso de maos dadas e outros não faziam nada. Nessa noite, pela primeira vez, ouvi imensa gente a falar de imensos partidos de cuja existência eu não fazia qualquer ideia. Mas eu nao fazia ideia de coisa nenhuma. Nessa noite percebi que toda a gente no coro, ou quase toda, estava ligada a alguns desses partidos. E que isso já vinha de trás. E que eu nunca dera por nada mas agora era por aí que ia jogar-se o nosso futuro. O coro mudou de sede e passou a chamar-se Cooperativa Povo em Luta nessa mesma semana. Houve muita gente que sempre lá estivera e de repente deixou de estar. Houve muita outra gente que apareceu, vinda não sei de onde. Em geral parecia tudo menos doce do que antes. Mas a nossa excitacao era tao grande que também não tínhamos propriamente tempo para dar por isso. O Luís disse-me que eu devia entrar para o partido. Eu disse-lhe que ainda nem sequer tinha percebido assim muito bem o que era o marxismo. - É muito simples - explicou-me ele - Há ricos e pobres, não é? Os ricos sao maus, e os pobres sao bons. Se tu estás do lado dos ricos estás do lado dos maus, e se estás do lado dos pobres estás do lado dos bons. Se estás do lado dos pobres és marxista. Agora escolhe. Mas escolhe já. A luta começou, e não haverá prisioneiros. Eu tivera uma solida educacao católica. Aprendera de pequenina a acreditar no bem e no mal. Era só mudar os nomes. Não custava nada. Tornei-me marxista. E passei a não poder outra vez dizer quase nada quando ia jantar a casa dos meus pais. Chegava lá toda electrizada pelo ar que se respirava na rua e encontrava um ambiente crispado onde as pessoas diziam os comunas e partilhavam em frases curtas as suas apreensoes por toda a espécie de desgraças iminentes. O avô morreu. Nunca percebi bem de quê. Foi uma notícia repentina que me acordou às seis da manhã, e que me deixou sozinha com uma dor que não pude partilhar com ninguém. No funeral toda a gente dizia os comunas. No partido não se chorava a morte de um facho. Fiquei sentada ao pé da campa dele depois de toda a gente já se ter ido embora. Não fiz nada. Nao sabia explicar nada do que estava a sentir. Deixei passar muito tempo. Já não era capaz de rezar. Só queria que ele soubesse qeu eu continuava ali. Quando ia sozinha para casa depois de ter abandonado o cemitério vio o Luís a sair do barco de maos dadas com a Cristina. Mais tarde ele explicou-me que a fidelidade era um conceito burguês. De qualquer maneira, nós não vivíamos juntos e nunca tínhamos planeado viver. As pessoas deviam estar umas com as outras apenas quando lhes apetecia. De forma que passei a ter encontros regulares com o maestro, que afinal há mais de um ano que era um alto dirigente do partido na clandestinidade e que já há bastante tempo que dava sinais de estar interessado nesse tipo de actividades. Achei piada a dormir com um homem mais velho. Foi uma espécie de âncora reconfortante lançada para o passado. Lembrava-me do meu holandês e punha-me a cantar a versao francesa da "Internacional". Ninguém conseguia decidir quel é que era a verdadeira versao portuguesa da "Internacional" e o maestro gostava imenso da minha voz. Quando a Cooperativa passou a albergar também o GIP e lá apareceu um tarefeiro muito moreno e de olhos muito tristes que parecia estar a precisar imenso de carinho, já não me pareceu ser necessário que acontecesse nada de especial para eu dormir com ele. Para mim, era tudo claro como água. Talvez ele não tivesse dado ainda por isso. Eu dei. Vi logo que o miúdo estava completamente apaixonado pela Sofia. A sofia acabara de fazer dezasseis anos. Tinha imensa graça, ams trazia ainda interposta entre ela e o mundo aquela carapaça de picos e de fervor apostólico que é característica das virgens. Tratava-se, a todos os títulos, de uma prestacao de primeiros socorros. Nessa altura passávamos noites sucessivas em claro por causa das reunioes. Eu lembor-me de ter sempre os olhos a arder e a garganta seca. Lembro-me de adormecer nos autocarros e de chegar à editora estafada. Engolia várias chávenas de um café muito mau que lá se fazia e traduzia versoes aelmãs de poemas do Maiakovski sentada contra a parede que agora estava toda forrada de posters com versos de Thiago de Mello. Tinha deixado de usar soutien e lembro-me de me sentir feliz. O tarefeiro tinha acabado de entrar para Medicina e sentia-se bastante infeliz. Houve uma madrugada em que me surpeendi a passar-lhe a mao pelo ombro e sugerir-lhe que viesse até minha casa. Ouvira-o segredar à Sofia que por acaso dessa vez trouxera o caro do pai. A Sofia dissera uma data de palavroes e daí a bocado fora a pé para casa. Gostava muito de andar sozinha a pé pela cidade, sobretudo fora de horas. O Mário olhava em frente quando entrámos no carro do pai dele. O Rossio estava todo cheio de grupos de gente a discutir. Também achei graça a dormir com um homem mais novo. O maestro não achou grande graça. A companheira dele, que era francesa, também não estava a achar qualquer espécie de graça. O Luís já há bastante tempo que não achava graça absolutamente nenhuma e a Cristina começava a achar que aquilo afinal tinha menos graça do que ela pensara ao princípio. Nessa altura o CDS anunciou o seu nascimento e convocou um comício para o Sao Luiz. O meu pai era um dos fundadores do CDS. O partido estava determinado em esmagar a besta fascista logo ali à nascença. Agora escolhe, dissera o Luís. Eu escolhera. Engoli todo o mal-estar, todo o remorso, todas as memórias do meu pai a passear comigo ao colo nas manhãs frias do Inverno no Alentejo. Em Breve não teremos nada no Alentejo, dissera o meu pai ainda há poucas semanas, e essa era uma das razoes pelas quais ele achava imprescindível investir toda a sua energia, e a sua vida se fosse preciso, na imposicao do CDS. O meu pai nessa altura chamava-me Minhoca. E tirava-me imensas fotografias, porque de todos os meus irmaos e primos eu era que fazia mais poses. O meu pai gostava de mim. O meu pai gostava muito de mim. Há uma espécie de amor que só os pais podem ter pelas filhas. Enfiei o braço esquerdo no de um camarada vindo da Buraca, ergui odireito com o punho cerrado quando o controleiro deu o sinal, e comecei a subir o Chiado com todos os outros manifestantes gritando Morte ao Fascismo. Eu ia na preimeira fila. Morte ao Fascismo. Zelimir Brala Crestomatia de Quarta Feira (15) ------------------------------------------------------------------------ Vasco Pulido Valente Espioes e diplomatas Duas das minhas maiores desilusoes do 25 de Abril foram os espioes e os diplomatas. Achava a diplomacia uma actividade complexa e perigosa para espíritos superiores, que decidiam o destino do mundo com frases sibilinas e silêncios clamorosos em jantares sob candelabros, enquanto seduziam condessas com boquilhas ou fascinavam efebos ambíguos. Os jornais e a literatura popular falavam sempre em "xadrez diplomático", imagem que me parecia inteiramente adequada. Imaginava manobras subtis, movimentos brilhantes, visoes esplenderosas perseguidas com pertinácia num labirinto de compromissos e dificuldades. Por detrás da diplomacia, estava a espionagem. Sou um fanático de romances de espionagem. Li tudo. Comecei com Fleming e James Bond e não parei mais: Le Carré, Volkoff, Follet, William Buckley, dezenas de outros. Confesso mesmo sem vergonha que acabei em Ludlum e não duvido que chegue a muito pior. Por causa destes interesses adquiri uma cultura especializada, rara nos meus contemporâneos, com as possíveis excepçoes de Vítor Cunha Rego e Ángelo Correia. Conheço a organizacao interna do KGB tao bem como a do Instituto de Ciências Sociais, onde trabalho sob o pseudónimo de Vasco Correia Guedes. Sei o que há a saber sobre o Directório III (Desinformacao) e sobre o VII (Chantagem, Eliminacao e Assassinato); e também sobre os métodos de recrutamento, as várias categorias de agentes, modus operandi e tipos de equipamento e armas mais vulgarmente usados. Comparados com o KGB, a CIA e os serviços ingleses, franceses e israelitas sao instituiçoes públicas. Os serviços secretos ingleses tornaram-se até famosos por não serem secretos. Neles nasceu a figura da toupeira, Bill Haydon em Le Carré e, na vida comum, Burgess, MacLean e, principalmente, Kim Philby. Se com os espioes do Leste ainda faço alguma cerimónia, com os do Ocidente sinto-me quase em família. Podia ir amanhã atrás de Smiley e Toby Esterhaze caçar o evanescente Karla ou receber, sem pestanejar, em Langley, sede central da CIA, a ordem de "desestabilizar" o PPD/PSD. Do calao técnico à história da "casa", das regras de segurança ao uso eficiente de identidades falsas, nada de importante teria já a aprender. Para dizer a verdade, sofri o primeiro desgosto com a espionagem em Oxford, antes do 25 de Abril. Apesar de o meu colégio, St. Antony's, passar por uma ninho de espioes, em quatro anos de assídua frequência do respectivo bar, ninguém tentou recrutar-me. Nem o KGB, nem a CIA, nem o MI5. Ninguém. Aludi, insinuei, por pouco não propunha. Sem efeito. Atribuí esta humilhacao à minha heterossexualidade, coisa assaz suspeita à classe dirigente inglesa e aos meios académicos de Oxford, e esperei por dias melhores. Com o 25 de Abril, julguei que vinham enfim as grandes oportunidades. Não contava, evidentemente, receber qualquer convite do KGB, que tinha uns bons milhares de espioes no Partido Comunista e com certeza não precisava de mais. Mas parti do princípio de que, pelo menos, a CIA e o MI5, quereriam por força os mesu inestimáveis préstimos. Se queriam, não o mostraram. Pensei, com inveja, que haviam descoberto melhor. Por estas e por outras, só entrei a sério na intriga internacional em 1976, pela mao de Medeiros Ferreira, que me levou com ele à Assembleia Geral das Naçoes Unidas. Fiquei estupefacto. As conversas entre os Poderes do universo eram de uma trivialidade assustadora. Hora após hora, Medeiros Ferreira garantia ao Paquistao, à Noruega, ao Peru e à Índia a amizade e os desejos de cooperacao do povo português e recebia em troca a segurança da amizade e dos desejos de cooperacao dos povos do Paquistâo, da Noruega, do Peru e da Índia. Num encontro privado, o ministro dos Estrangeiros da China, juntando os dedos em cacho para exemplificar, aconselhou Medeiros a unir-se à Europa contra os Soviéticos (um mês depois desaparecia numa purga). O ministro dos Estrangeiros da Inglaterra, Anthony Crosland, o mais eminente teórico da social-democracia moderna, bebia whisky sem gelo, por copos de água, às dez da manhã, e manifestou a sua alegria pelo advento da liberdade em Portugal (um mês depois morreu a regar o jardim com um ataque de coracao). A estrela das estrelas, Henry Kissinger, rodeado por uma dúzia de assistentes, declarou o dr. Mário Soares um génio. O pessoal diplomático português, em que se incluíam dois futuros ministros e vários embaixadores, discutia obsessivamente câmbios e compras, únicas matérias que o interessavam e em que parecia perito. Um segundo secretário primoroso farejou-me e inquiriu com um ar cúmplice: "Paco Rabanes?" Voltei moribundo. Era, entao, isto? O Congresso de Viena, Bismarck, Disraeli, Beust, Grey, tinham sido isto? E os espioes? Como seriam os espioes, os oficiais e os outros? No fim de 1979, a minha educacao continuou. A emergência da AD e a possibilidade da sua vitória valeram-me duas ou três dúzias de almoços com funcionários sortidos de potências amigas. Presumi que pretendiam devassar mistérios e extorquir informaçoes confidenciais. Preparei-me, com trepidacao, para não ceder nem à astúcia, nem à blandícia. Nova surpresa. Os meus interlocutores (no mínimo, metade espioes, segundo as doutrinas mais ortodoxas) revelaram desde logo uma devastadora ignorância da política portuguesa: das pessoas, das instituiçoes, da sociedade, dos acontecimentos próximos. De resto, partilhavam as angústias do eleitor médio e as dúvidas do editorial do Expresso. Não pediam informaçoes, confidenciais ou não, pediam que os sossegassem e lhes dessem mimo. Nem no Governo as coisas mudaram. Uma sucessao infinita de embaixadores "apresentou-me cumprimentos", exercício cujo propósito nunca compreendi. De parte a parte não havia nada a dizer. Faziam-se esgares amáveis e aguentava-se dez minutos de um silêncio penoso. No auge da excitacao do Outono de 1980, surgiram umas personagens de origem obscura, com quem entretive conciliábulos em restaurantes excêntricos. Esses traziam uma pergunta terrível: "O que é que vai suceder?" Respondi-lhes que não sabia e eles olharam para o prato com inquietacao. Até terça-feira passada, 24 de Abril, supunha que esta desoladora experiência dos espioes e dos diplomatas se devia à minha insignificância política. Nem ministros, nem embaixadores, nem agentes secretos ou semi-secretos se dignavam falar comigo de igual para igual. O que, embora vexatório, se percebia. Nessa terça-feira, porém, Mário Soares contou o que Kissinger lhe dissera em 1975: que os comunistas iam ganhar, que ele era Kerensky, que fugisse de Portugal e que não se afligisse, porque certamente arranjava emprego numa Universidade americana. Os meus diplomatas e os meus espioes estavam explicados. Não havia outros. Mete medo, mas é assim. Zelimir Brala Crestomatia de Quarta Feira (15) ------------------------------------------------------------------------ Vasco Pulido Valente Espioes e diplomatas Duas das minhas maiores desilusoes do 25 de Abril foram os espioes e os diplomatas. Achava a diplomacia uma actividade complexa e perigosa para espíritos superiores, que decidiam o destino do mundo com frases sibilinas e silêncios clamorosos em jantares sob candelabros, enquanto seduziam condessas com boquilhas ou fascinavam efebos ambíguos. Os jornais e a literatura popular falavam sempre em "xadrez diplomático", imagem que me parecia inteiramente adequada. Imaginava manobras subtis, movimentos brilhantes, visoes esplenderosas perseguidas com pertinácia num labirinto de compromissos e dificuldades. Por detrás da diplomacia, estava a espionagem. Sou um fanático de romances de espionagem. Li tudo. Comecei com Fleming e James Bond e não parei mais: Le Carré, Volkoff, Follet, William Buckley, dezenas de outros. Confesso mesmo sem vergonha que acabei em Ludlum e não duvido que chegue a muito pior. Por causa destes interesses adquiri uma cultura especializada, rara nos meus contemporâneos, com as possíveis excepçoes de Vítor Cunha Rego e Ángelo Correia. Conheço a organizacao interna do KGB tao bem como a do Instituto de Ciências Sociais, onde trabalho sob o pseudónimo de Vasco Correia Guedes. Sei o que há a saber sobre o Directório III (Desinformacao) e sobre o VII (Chantagem, Eliminacao e Assassinato); e também sobre os métodos de recrutamento, as várias categorias de agentes, modus operandi e tipos de equipamento e armas mais vulgarmente usados. Comparados com o KGB, a CIA e os serviços ingleses, franceses e israelitas sao instituiçoes públicas. Os serviços secretos ingleses tornaram-se até famosos por não serem secretos. Neles nasceu a figura da toupeira, Bill Haydon em Le Carré e, na vida comum, Burgess, MacLean e, principalmente, Kim Philby. Se com os espioes do Leste ainda faço alguma cerimónia, com os do Ocidente sinto-me quase em família. Podia ir amanhã atrás de Smiley e Toby Esterhaze caçar o evanescente Karla ou receber, sem pestanejar, em Langley, sede central da CIA, a ordem de "desestabilizar" o PPD/PSD. Do calao técnico à história da "casa", das regras de segurança ao uso eficiente de identidades falsas, nada de importante teria já a aprender. Para dizer a verdade, sofri o primeiro desgosto com a espionagem em Oxford, antes do 25 de Abril. Apesar de o meu colégio, St. Antony's, passar por uma ninho de espioes, em quatro anos de assídua frequência do respectivo bar, ninguém tentou recrutar-me. Nem o KGB, nem a CIA, nem o MI5. Ninguém. Aludi, insinuei, por pouco não propunha. Sem efeito. Atribuí esta humilhacao à minha heterossexualidade, coisa assaz suspeita à classe dirigente inglesa e aos meios académicos de Oxford, e esperei por dias melhores. Com o 25 de Abril, julguei que vinham enfim as grandes oportunidades. Não contava, evidentemente, receber qualquer convite do KGB, que tinha uns bons milhares de espioes no Partido Comunista e com certeza não precisava de mais. Mas parti do princípio de que, pelo menos, a CIA e o MI5, quereriam por força os mesu inestimáveis préstimos. Se queriam, não o mostraram. Pensei, com inveja, que haviam descoberto melhor. Por estas e por outras, só entrei a sério na intriga internacional em 1976, pela mao de Medeiros Ferreira, que me levou com ele à Assembleia Geral das Naçoes Unidas. Fiquei estupefacto. As conversas entre os Poderes do universo eram de uma trivialidade assustadora. Hora após hora, Medeiros Ferreira garantia ao Paquistao, à Noruega, ao Peru e à Índia a amizade e os desejos de cooperacao do povo português e recebia em troca a segurança da amizade e dos desejos de cooperacao dos povos do Paquistâo, da Noruega, do Peru e da Índia. Num encontro privado, o ministro dos Estrangeiros da China, juntando os dedos em cacho para exemplificar, aconselhou Medeiros a unir-se à Europa contra os Soviéticos (um mês depois desaparecia numa purga). O ministro dos Estrangeiros da Inglaterra, Anthony Crosland, o mais eminente teórico da social-democracia moderna, bebia whisky sem gelo, por copos de água, às dez da manhã, e manifestou a sua alegria pelo advento da liberdade em Portugal (um mês depois morreu a regar o jardim com um ataque de coracao). A estrela das estrelas, Henry Kissinger, rodeado por uma dúzia de assistentes, declarou o dr. Mário Soares um génio. O pessoal diplomático português, em que se incluíam dois futuros ministros e vários embaixadores, discutia obsessivamente câmbios e compras, únicas matérias que o interessavam e em que parecia perito. Um segundo secretário primoroso farejou-me e inquiriu com um ar cúmplice: "Paco Rabanes?" Voltei moribundo. Era, entao, isto? O Congresso de Viena, Bismarck, Disraeli, Beust, Grey, tinham sido isto? E os espioes? Como seriam os espioes, os oficiais e os outros? No fim de 1979, a minha educacao continuou. A emergência da AD e a possibilidade da sua vitória valeram-me duas ou três dúzias de almoços com funcionários sortidos de potências amigas. Presumi que pretendiam devassar mistérios e extorquir informaçoes confidenciais. Preparei-me, com trepidacao, para não ceder nem à astúcia, nem à blandícia. Nova surpresa. Os meus interlocutores (no mínimo, metade espioes, segundo as doutrinas mais ortodoxas) revelaram desde logo uma devastadora ignorância da política portuguesa: das pessoas, das instituiçoes, da sociedade, dos acontecimentos próximos. De resto, partilhavam as angústias do eleitor médio e as dúvidas do editorial do Expresso. Não pediam informaçoes, confidenciais ou não, pediam que os sossegassem e lhes dessem mimo. Nem no Governo as coisas mudaram. Uma sucessao infinita de embaixadores "apresentou-me cumprimentos", exercício cujo propósito nunca compreendi. De parte a parte não havia nada a dizer. Faziam-se esgares amáveis e aguentava-se dez minutos de um silêncio penoso. No auge da excitacao do Outono de 1980, surgiram umas personagens de origem obscura, com quem entretive conciliábulos em restaurantes excêntricos. Esses traziam uma pergunta terrível: "O que é que vai suceder?" Respondi-lhes que não sabia e eles olharam para o prato com inquietacao. Até terça-feira passada, 24 de Abril, supunha que esta desoladora experiência dos espioes e dos diplomatas se devia à minha insignificância política. Nem ministros, nem embaixadores, nem agentes secretos ou semi-secretos se dignavam falar comigo de igual para igual. O que, embora vexatório, se percebia. Nessa terça-feira, porém, Mário Soares contou o que Kissinger lhe dissera em 1975: que os comunistas iam ganhar, que ele era Kerensky, que fugisse de Portugal e que não se afligisse, porque certamente arranjava emprego numa Universidade americana. Os meus diplomatas e os meus espioes estavam explicados. Não havia outros. Mete medo, mas é assim. Alexandre Herculano Saudade - Na Ilha Verde Ao po^r do Sol das calendas de Abril da era de 749. 1 O mar estava tranquilo, e o ar puro e dia'fano. As costas de A'frica fronteiras, la' na extremidade do horizonte, pareciam uma orla escura bordada no manto azul do firmamento. A aragem do norte encrespava suavemente a superfi'cie das a'guas; as ondas vinham espraiar-se preguic,osas no areal da bai'a. O barqueiro Ranimiro dormia na sua barca amarrada na foz do Palmo'nio. Uma saudade indizi'vel atrai'a-me para o mar. Saltei na barca; o rui'do que fiz despertou Ranimiro. - Ao largo - disse-lhe eu. Empunhou os remos, e partimos. - Para onde, presbi'tero? - perguntou o barqueiro, depois de vogar alguns momentos em sile^ncio. - Quero respirar o ar puro e fresco da tarde; mais nada - repliquei. - Leva-me para onde te aprouver. - Se vos parece - tornou Ranimiro -, rodearemos a Ilha Verde, entraremos no canal, e saltareis na margem. Pelo tempo que vai, ela estara' agora esmaltada de verdura e boninas. Calei-me: o barqueiro tomou por aprovac,a~o o meu sile^ncio. Voltando a proa para poente, corremos ao largo da ilha e, rodeando a sua margem ocidental, abica'mos em terra pelo lado da enseada que a separa do continente. Ranimiro na~o se enganara: como uma tapec,aria riqui'ssima lanc,ada ao som das a'guas, a superfi'cie da ilha agitava-se tre'mula com a aragem da terra, que curvava brandamente as flores e as folhinhas lanceoladas da relva. Assentado `a sombra de uma rocha que formava um promontoriozinho do lado do sul, lancei os olhos em volta ate' onde se descobria o horizonte. La', no extremo do Estreito para a banda do mar interior, viam-se na ponta da A'frica os cimos das torres de Septum fronteira aos cerros escalvados do Calpe. De Septum para o ocidente as costas africanas contrastavam nas suas ondulac,o~es suaves com a penedia a'spera das ribas hispa^nicas, e, confrangido entre os dois continentes, o mar balouc,ava-se resplandecente com os raios ja' inclinados do Sol. De roda de mim a atmosfera estava impregnada de um ha'lito perfumado: era a natureza que sorria afagada pela Primavera. As aves aqua'ticas redemoinhavam nos ares ou pousavam sobre as a'guas, e pareciam, nos seus voos incertos, ora vagarosos, ora ra'pidos, folgarem com os primeiros dias da estac,a~o dos amores. Uma melancolia suave se me erguia lentamente no corac,a~o, debaixo daquele ce'u puro, nagquela atmosfera balsa^mica, ante aqueles horizontes saudosos. As la'grimas rebentaram-me involuntariamente dos olhos. Era feliz neste momento, porque repousava de amarguras. Olhei para a barca: Ranimiro adormecera de novo `a proa. Repousavam bem perto um do outro a mate'ria e o espi'rito. Bem-aventurado, pensei eu comigo, aquele em quem os afagos de uma tarde serena de Primavera no sile^ncio da solida~o produzem o torpor dos membros; porque nessa alma dormem profundamente as dores no meio do rui'do da vida! E este pensamento trouxe-me pouco e pouco `a memo'ria as tempestades do passado. Ai de mim! Logo se me enxugaram as la'grimas, porque eram de consolac,a~o, e essa lembranc,a as estancou! 2 Porque^ na~o adormec,o eu, como o rude barqueiro, ao murmu'rio das vagas sonolentas, ao sussurro da brisa do norte? Porque mulher ba'rbara na~o entendeu o que valia o amor de Eurico; porque velho orgulhoso e avaro sabia mais um nome de avo's do que eu, e porque nos seus cofres havia mais alguns punhados de ouro do que nos meus. As ma~o imbeles de uma donzela e de um vleho esmagaram e despedac,aram o corac,a~o de um homem, como os cac,adores covardes assassinam no fojo o lea~o indoma'vel e generoso. E, todavia, este corac,a~o sentia a veoz da conscie^ncia pregoar-lhe largos destinos! Porque^ na~o emudeceu essa voz quando do po'rtico do templo lancei ao mundo a maldic,a~o da despedida? Porque^ me lembra com saudade, aqui, a estas horas, o tempo das minhas esperanc,as? E' porque o viver e' o ecu'leo do espi'rito: a alma estorce-se como agonizante no meio dos mais incomporta'veis tormentos, sem nunca poder expirar, e os seus afectos profundos sa~o com ela; na~o lhes e' dado o morrer. Paz e esquecimento, oh meu Deus! 3 Os raios derradeiros do Sol desapareceram: o clara~o avermelhado da tarde vai quase vencido pelo grande vulto da noite, que se alevanta do lado de Septum. Nesse cha~o tenebroso do oriente a tua imagem serena e luminosa surge a meus olhos, oh Hermengarda, semelhante `a aparic,a~o do anjo da esperanc,a nas trevas do condenado. E essa imagem e' pura e sorri; orna-lhe a fronte a coroa das virgens; sobe-lhe ao rosto a vermelhida~o do pudor; o ami'culo alvi'ssimo da inoce^ncia, flutuando-lhe em volta dos membros, esconde-lhe as formas divinas, fazendo-as, porventura, suspeitar menos belas que a realidade. E' assim que eu te vejo em meus sonhos de noites de atroz saudade: mas, em sonhos ou desenhada no vapor do crepu'sculo, tu na~o e's para mim mais do que uma imagem celestial; uma recordac,a~o indecifra'vel; um consolo e ao mesmo tempo um marti'rio. Na~o eras tu emanac,a~o e reflexo do ce'u? Porque^ na~o ousaste, pois, volver os olhos para o fundo abismo do meu amor? Verias que esse amor do poeta e' maior que o de nenhum homem; porque e' imenso, como o ideal, que ele compreende; eterno, como o seu nome, que nunca perece. Hermengarda, Hermengarda, eu amava-te muito! Adorava-te so' no santua'rio do meu corac,a~o, enquanto precisava de ajoelhar ante os altares para orar ao Senhor. Qual era o melhor dos dois templos? Foi depois que o teu desabou, que eu me acolhi ao outro para sempre. Porque^ vens, pois, pedir-me adorac,o~es quando entre mim e ti esta' a cruz ensanguentada do Calva'rio; quando a ma~o inexora'vel do sacerdo'cio soldou a cadeia da minha vida `as la'jeas frias da igreja; quando o primeiro passo ale'm do limiar desta sera' a perdic,a~o eterna? Mas, ai de mim!, essa imagem que parece sorrir-me nas solido~es do espac,o esta' estampada unicamente na minha alma e reflecte-se no ce'u do oriente atrave's destes olhos perturbados pela febre da loucura, que lhes queimou as la'grimas. Tu, Hermengarda, recordares-te?! Mentira!... Cre^s que morri, ou porventura, nem isso cre^s; porque para creres era preciso lembrares-te, e nem uma so' vez te lembrara's de mim! La', no tumulto dos cortesa~os, onde o amor e' ca'lculo ou sentimento grosseiro, tera's achado quem te chame sua, quem te aperte entre os brac,os, quem tivesse para dar a teu pai o prec,o do teu corpo e te comprasse como alfaia preciosa para servic,o dome'stico. O velho estara' contente, porque trocou sua filha por ouro. A isto chama prude^ncia o mundo estu'pido e ambicioso; a isto, que na~o e' mais do que uma prostituic,a~o abenc,oada sacrilegamente perante as aras sacrossantas. Oh, quantas vezes esse pensamento repugnante me tem feito vaguera louco pelas montanhas, uivando ocmo o lobo esfaimado e tentando despedac,ar os rochedos com as ma~os, donde me goteja o sangue! E tu folgas e ris! Oxala' nunca saibas qua~o intenso e atroz e' o meu tormento, que devo velar diante dos homens debaixo de aspecto tranquilo, como se, em vez de marti'rio, ele fosse um abomina'vel crime. 4 E quem te disse, presbi'tero, que o teu amor na~o era um crime? Tens raza~o, conscie^ncia! Quando aos pe's do venera'vel Siseberto o gardingo Eurico jurou que abandonava o mundo, devia despir as paixo~es que do mundo trouxera. A luz brilhantes de afeic,o~es e esperanc,as a que vivia e que me povoava o corac,a~o de felicidade devia apagar-se enta~o, como a la^mpada do templo ao amanhecer; porque eu voltava-me para o ce'u, buscando a luz do Senhor. Mas o sol, apenas nasceu para mim, logo desapareceu no ocaso, e os que me cre^em alumiado mal pensam que vivo em trevas! As minhas paixo~es na~o podiam morrer, porque eram imensas, e o que e' imenso e' eterno. E assim, nem ouso pedir a paz do sepulcro; porque para mim na~o haveria paz, sena~o no aniquilamento. O aniquilamento! Que mal te fiz eu, oh meu Deus, para na~o me deixares ca' dentro mais que uma ideia risonha, mais que um desjo capaz de encher o abismo da minha desventura? Que mal te fiz eu para que esse desejo, essa ideia seja a que unicamente resta ao precito que se revolve em perpe'tuas angu'stias? Mas para mim, como para ele, tal pensamento e' va~o e mentido! Eternidade, eternidade, a alma do homem esta' encerrada e cativa no ilimitado do teu impe'rio! -- Herculano, Alexandre, "VI Saudade", Eurico, o presbi'tero, Texto integral, Introduc,a~o por Carlos Reis, Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, Lisboa pp. 55-59 .. Rita Ferro O Si'tio - Por muitas estantes que houvesse nunca estavam arrumados; entrava-se em casa e tropec,ava-se neles. Havia-os no va~o da escada, atra's dos mo'veis, debaixo dos sofa's, em cima da televisa~o. Eram livros dele e de outros, novos e velhos, portugueses e estrangeiros, comprados ou herdados. Eram romances e diciona'rios, biografias e ensaios, policiais e poemas. De autores mortos e vivos, maiores ou menores, divertidos ou mortais. Tantos, que na~o se podiam limpar, que na~o se podiam contar. Mas ele conhecia-os, um por um. - Foste tu que tiraste daqui o diciona'rio de si'mbolos? - Na~o, pai, nunca vi esse livro... Era espantoso: roubava-se um livro e ele descobria, detectava a falta dele no meio das lombadas, pressentia o lapso, estranhava a ause^ncia, pesava-lhe a perda, deixava-se acabrunhar como se ficasse de repente mutilado, incompleto, como se so' a recuperac,a~o daquele livro lhe restitui'sse a ordem interior. - Era um livro grande, amarelo, com letras azuis... - A se'rio, pai: na~o vi. As criadas riam-se, claro: - Para que quer o senhor doutor tanto livro? Vai ler isto tudo? - Sou escritor - desculpava-se ele, embarac,ado -, precisava de os ter `a minha volta... Na~o havia dia em que na~o sai'sse com uma pilha de volumes debaixo do brac,o, e que na~o voltasse com um saco a abarrotar de novos calhamac,os. Ja' o conheciam, na Rua do Alecrim. - Mais? - perguntava a minha ma~e, alarmada. Mas ele na~o se ofendia; abria o saco devagarinho, e ria-se todo, criando suspense: - Olhem so' o que eu encontrei... E mostrava para ningue'm os seus achados. Um dia encontrou-me a ler Pascoaes, e indagou, apreensivo: - Onde e' que foste buscar esse livro? - `A estante do seu escrito'rio - respondi-lhe eu, distrai'da. - Ah! - fez ele, contrariado. - Quando for assim, deves perguntar primeiro... - O pai na~o estava em casa...! - Mesmo assim - insistiu ele. - Na~o gosto que mexam nas minhas coisas... Tinha toda a raza~o: eram as suas coisas. E, no dia seguinte, antes de sair, certificava-se: Ja' voltaste a po^r o Verbo Escuro na minha secreta'ria? - Na~o, pai, ainda na~o acabei de ler... - Ah! Mas quando acabares na~o te esquecas de voltar a arruma'-lo no mesmo si'tio, na~o? Havia um si'tio. Um si'tio determinado para arrumar aquele livro. Um si'tio determinado para arrumar qualquer livro que fosse dele. Na~o por burocrata ordenac,a~o; mas mais como se cada escritor tivesse um quarto para ficar em sua casa. E so' ao jantar se interessava: - Enta~o? Esta's a gostar daquele livro? - Muito... - Muito? - perguntava, incre'dulo. - E' so' isso que tens para me dizer? E sentido: - Achas que um escritor leva a vida inteira a escrever so' para voce^s gostarem "muito"? Mas como eu dizia que sim, insolente, ele acabava a rir, desmanchado: - Ja' na~o e' mau, de facto... Temos uma casa em Vale de O'bidos. A minha ma~e gostava de bebericar gim-to'nico com rodelas de lima~o apanhado no pomar, e ele, de trabalhar, `a frente dos limoeiros... Foi ali que escreveu o seu romance, foi ali que anteviu a sua morte. - Pai! O que e' que esta' a escrever? - Um livro que na~o quer ser escrito... Era assim que o vi'amos sempre: a contrariar os seus livros. Um dia, teve mais dores do que de costume e saiu de casa numa maca. - O que e' que leva ai' escondido, pai? - O que e' que ha'-de-ser? - Na~o quer descansar? - Na~o... - Posso ve^-lo? - Podes... - autorizou, renitente. Abri-lhe as ma~os frias, tolhidas, inu'teis, e virei o livro ao contra'rio para confirmar se era aquilo que eu pensava. - Isto so' o pai... - ri eu, engolindo em seco. - ...levar isto para o hospital! Tinha-me enganado: na~o era a Bi'blia, como esperava, mas o Verbo Escuro outra vez. - Tem sido o meu companheiro... - revelou-me ele, com dores. E levantou o brac,o com esforc,o para o arrancar das minhas ma~o, para o apertar muito nas dele. Aquele livro. Aquele livro que desapareceu com o meu pai, num dia de nevoeiro. Aquele livro que nem as enfermeiras, nem os meus irma~os, nem eu, conseguimos mais localizar. Aquele livro que o meu pai levou com ele, certamente, para o arrumar numa estante perto dele... -- Ferro, Rita, O Si'tio, "VER", Ci'rculo de Leitores, Lisboa, Inverno 1994, N' 25, pp. 124-125 .. - Rita Ferro A Renu'ncia - So' descobriram que o rapaz tinha jeito para escrever no centena'rio de uma tia-avo' rabugenta, depois de o verem trancar-se na despensa por vinte e tre^s minutos e sair de la' com seis oitavas decassi'labas cabalmente resolvidas num guardanapo de papel a respeito do temperamento si'smico da ancia~, com um domi'nio tal que ate' a velha, de boca entreaberta besuntada de torta, lhe perdoou a insole^ncia para se esbodegar a rir na cadeira. Tinha dez anos, `a data. Estupefacto, o pai pediu-lhe o guardanapo e voltou a ler os versos. - Esta~o cheios de erros - descobriu. - E' espantoso como, no teu caso, a poesia se antecipou `a grama'tica... Apesar de catraio, o Joa~o melindrou-se: - Ja' sabia que me ia dizer isso... Arrependido, o pai achou que era seu dever alimentar-lhe a veia: - Le^, filho, le^... Ningue'm tem pacie^ncia para esponta^neos... E, aos quinze anos, depois de um serma~o alusivo `a responsabilidade do Dom, ofereceu-lhe uma caneta de tinta permanente e uma escrivaninha de homem. - Nada se consegue sem esforc,o - concluiu, solene E o rapaz la' seguiu a sua estrela: policopiou uma histo'ria bonita para oferecer `a fami'lia no Natal, no ano seguinte ganhou um pre'mio litera'rio num semana'rio importante, e, a partir desse dia, trabalhou como um danado para realizar o seu sonho: publicar o seu primeiro trabalho antes da maioridade! Transpirou tanto para o conseguir, que criou um calo no indicador e passou a usar o'culos. Era um dia'rio i'ntimo, inquieto e arrebatado, que a cri'tica, impressionada com tanto fo^lego, classificou de obra-prima. Os escola'sticos descobriram no seu discurso uma "metafi'sica incofessada", os teo'ricos reconheceram na sua narrativa a "distancic,a~o cognitiva necessa'ria `a deduc,a~o de invariantes mentais trans-histo'ricas", os linguistas classificaram-no de "logoteta", e mais do que um encartado aplaudiu a sua "compatibilidade sema^ntica", a sua "estrutura dina^mica centri'fuga", e, acima de tudo, a incontroversa beleza do seus "eixo sintagma'tico". Mas como o Joa~o, `a semelhanc,a de muitos escritores, percebia pouco de literatura, foi pelas palmadas nas costas que recebeu nesse dia que compreendeu que tinha razo~es para se alegrar. Foi um esti'mulo importante, mas que acabou por afectar o seu futuro: inchou de orgulho. Na~o suportava as cri'ticas desfavora'veis, vivia num sobressalto permanente receando o desprezo dos colegas, e sofria como um animal acossado o jui'zo dos leitores. A partir desse, muitos ti'tulos se seguiram; uns, vergastados pela cri'tica e procurados pelo pu'blico, outros agraciados com pre'mios e esquecidos nas livrarias. Era o destino de todos, mas o Joa~o na~o suportava o seu: vivia num sobresalto permanente receando o jui'zo dos leitores, revoltava-se por ter de pedir autorizac,a~o `a cri'tica para usar do seu talento, e sofria como um animal acossado tudo quanto lhe diziam: - Este seu livro e' formida'vel! - Acha mesmo? - animava-se ele. - ... Mas na~o e' ta~o bom como o u'ltimo... - Ah! - soltava ele, destroc,ado. Mas continuou a ler o que podia e a escrever como sabia, naquela febre que persegue os adoradores de palavras, ate' ao dia em que se levantou como um sona^mbulo para se transcender a si pro'prio. - Vou comec,ar a escreve^-lo hoje - disse ao pai. E o pai, que o conhecia, na~o duvidou que ele se referia `a sua obra maior. Escreveu um romance buco'lico em tempo recorde, aproveitando umas fe'rias na montanha, e levou os dois anos seguintes a ajardina'-lo a seu gosto: podou-lhe as palavras, regou-lhe o sentido e aparou-lhe a forma, ate' o livro cheirar a urze e a rosmaninho e as pro'prias ideias passaram de trigo a pa~o. Emagreceu oito quilos, mas chorou no fim. - Esta' pronto - disse ao pai. - Se lhe mexo mais, murcha... Mas, antes de o publicar, pediu o parecer de dois amigos frontais. - Excelente - disse um. - Confuso - disse o outro. Desesperado, o Joa~o apressou-se a levar o seu livro ao editor antes que se arrependesse: - Esta' pronto... - anunciou, alterado. - Depois, diga-me qualquer coisa... E o telefone soou dias depois: - Joa~o? - gritou a voz. - Oic,a, vamos avanc,ar com isto imediatamente! Na~o ha' du'vida: e' o seu melhor livro! Mas o Joa~o, que comec,ava a revelar um comportamento esquizo'ide, trancou-se no quarto para digerir o sofisma: - Se o editor gostou, etna~o, se calhar, e' porque eu sou mesmo um bom escritor... - Mas... e se os cri'ticos disserem mal? - contrapo^s, desconfiado. E concluiu, relutante: - Se os cri'ticos disserem mal, enta~o e' porque eu sou um mau escritor... E castigou-se ainda mais: - E se as pessoas na~o gostarem? Para aceitar, resignado: - Se as pessoas na~o gostarem, mais uma raza~o: e' porque sou um mau escritor... Mas tinha dado corpo e alma `aquele livro e custava-lhe abdicar: - E se, pelo contra'rio, as pessoas gostarem, devorarem, esgotarem o meu livro? Mas na~o se queria iludir: - O facto de as pessoas comprarem o meu livro na~o faz de mim um escritor - respondeu, vencido. Restava-lhe uma u'nica esperanc,a: - E se eu, eu, e so' eu, gostar do meu livro? Mas ja' sabia a resposta: - Se eu, eu, e so' eu, gostar do meu livro, enta~o e' seguramente porque sou parvo! E, aterrorizado com a possibilidade daquela confirmac,a~o, decidiu na~o arriscar: telefonou ao editor e cancelou a impressa~o. E quando o pai, dias depois, lhe perguntou pelo livro, o Joa~o sorriu com amargura: - Matei-o, pai, teve que ser... - E mortificado de dor: - Era ele ou eu, compreende? -- Ferro, Rita, A Renu'ncia, "VER", Ci'rculo de Leitores, Lisboa, Outono 1993, N' 24, pp. 98-99 .. Al Berto O Esconderijo do Homem Triste - Na~o sei o que me aconteceu para ficar ta~o triste. Lembro-me de ter percorrido meio mundo `a procura de imagens. Tinham- me dito: e' no movimento incessante de quem viaja que encontrara's a imobilidade que desejas. Mas eu na~o sabia para onde ir. Deambulei anos a fio, e nunca encontrei as imagens que queria. Gastei as parcas forc,as que tinha neste trabalho, ate' que um dia me perdi junto ao mar. Resolvi construir, ali mesmo, uma casa. Tencionava na~o sair mais daquele lugar onde me perdera. Imobilizar- me, viver e envelhecer dentro de quatro paredes nuas erguidas pelas minhas ma~os. Morrer frente ao mar, sozinho, como num romance que lera havia anos. Esperar que a casa se esboroasse e me servisse, por fim, de tu'mulo. Assim na~o aconteceu. Algum tempo depois, a casa transformou-se subitamente em prisa~o. E talvez tenha sido isso que me po^s, assim, triste para sempre. Custava-me a crer que aquilo que eu pro'prio construi'ra acabasse de me atraic,oar. Assustei-me e fugi nessa mesma noite. Ignoro o que se passou com a casa. Na~o sei se ainda existe... o que sei e' que a meio daquela fuga deseperada ocorreu-me o que me levaria, enfim, a encontrar o esconderijo para a minha imobilidade. E' desse lugar iluminado que, hoje, vos falo. Fui ter com um foto'grafo meu amigo e pedi-lhe para me retratar. Ele acendeu um foco de luz. Sentei-me no centro dele. A ma'quina disparou sem cessar. Gesticulei, abri os brac,os, mexi-me muito - como se soubesse que nunca mais o voltaria a fazer. Quando o meu amigo mergulhou o papel fotogra'fico no revelador, eu tambe'm mergulhei. Mas devo ter desmaiado uns segundos, talvez minutos, porque ao retomar conscie^ncia senti as pernas e os brac,os dormentes - e todo o meu corpo estava mole. Um ve'u de luz toldou-me a visa~o. Ceguei por instantes, mas na~o foi uma sensac,a~o desagrada'vel. Depois, o corpo comec,ou a ondear, a impregnar-se no papel e a coincidir com o retrato que o meu amigo fizera de mim. Segundos mais tarde uma pinc,a meta'lica tirava-me do revelador. Senti, enta~o, a frescura da a'gua - e toda a superfi'cie da folha de papel, o meu novo corpo, brilhou. Em seguida deixei-me enteorpecer na temperatura te'pida, voluptuosa, do fixador. Tinha encontrado o esconderijo. E aqui estou, diante de quem me visita e olha. Apesar de na~o ter deixado de ser um homem triste, adquiri a vantagem de estar sentado, e de ja' na~o precisar de fugir ou desejar seja o que for. Mas o pior momento do dia e' aquele em que nos separamos. Na~o consigo dormir. Fico noite fora com a minha solida~o - e quem esteve a ver-me parte com o susto de continuar a existir. Nenhum de no's e' capaz de murmurar: fica comigo e toca-me. E a noite cai, de certeza, mais escura para quem parte. Eu sou apenas a imagem do que fui. Na~o sinto nada. Certa vez, um homem e uma mulher pararam diante de mim. Olharam-me muito tempo. Aproximaram-se, afastaram-se, voltaram a aproximar-se do vidro que me protege. O nariz da mulher quase me tocou nos joelhos. De repente, a mulher inclinou a cabec,a, sobressaltou-se e disse: - Ze', perdi o vidro do relo'gio. O homem baixou-se e procurou-o. Quando o encontrou, deu-lho. Mas ela argumentou: - A culpa foi tua. Eu na~o queria vir aqui. O homem, muito se'rio, respondeu-lhe. - Francamente, Fa'tima, na~o te toquei no pulso. Na~o mexi no tempo. Nunca mexo no tempo... Outras vezes, quando na~o esta' ningue'm olhar para mim, ponho-me a cismar: A luz e' o meu tu'mulo. Em tempos, os meus gestos tiveram o rigor da abelha que rouba o po'len `a flor. Com esses gestos quis construir um espac,o para o sile^ncio. Uma morada onde fosse possi'vel ignorar o mundo, ou esquece^- lo. De vez em quando, aceito ainda o miste'rio das palavras que me cercam e na~o coincidem, em nada, com a realidade. Eu so' quis celebrar a vida. Encontrar o esconderijo onde fosse possi'vel um derradeiro acto de paixa~o. O esconderijo onde pudesse, de novo, tocar teu rosto e recusar a aridez da calu'nia. Mas a luz e' o meu tu'mulo. A pouco e pouco incendiaram-se os negros profundos, o ci'rculo luminoso aprisionou-me, e as ma~os gesticularam sem sentido. O interior das paisagens guardou a tua ause^ncia. E numa u'ltima visa~o a madrugada irrompeu do mar adormecido. As ma~os abriram-se novamente, quando o dia comec,ou a devorar a nudez do corpo. Compovido, perdi a voz. Na~o podia chamar-te, lembro-me, por isso desatei a escrever o teu nome nas paredes da cidade. Tempo perdido. Ja' na~o podias ouvir-me nem ler-me. Foi quando desejei, com ardor, este esconderijo. Aqui, pelo menos, respiro ar condicionado, e um foco de luz simula a eternidade dos dias. Ha~o ha' emoc,o~es, nem palavras ditas em voz alta. Na~o acontece nada, nem se ouve respirac,a~o alguma. Quem me visita diz coisas fanta'sticas a meu respeito. Nunca confirmo nem desminto. Limito-me a ouvir e calo-me. Porque ha' coisas que devem correr com o tempo e, mais tarde ou mais cedo, nele se apagam. E' claro que tambe'm ha' coisas guardadas na mionha memo'ria de papel. Mas essas, ja' na~o tenho a certeza de que algue'm as tenha dito ou eu as tenha, de facto, ouvido. Por vezes ponho-me a sorrir, mas ningue'm consegue ver que sorrio, porque o retrato que me esconde - como eu - esta' morto e desfocado. E a luz e' o nosso tu'mulo. -- Al Berto, O Esconderijo do Homem Triste, "VER", Ci'rculo de Leitores, Lisboa, Vera~o 1992, N' 19, pp. 74-75 .. Ferna~o Lopes Cro'nica de El-Rei D. Joa~o I de Boa Memo'ria - 6 - O Mestre de Avis compromete-se a matar o Andeiro Como A'lvaro Pais falou com o Mestre sobre a morte do conde Joa~o Fernandes, e do acordo em que ambos ficaram Falou o conde ao Mestre de Avis, dizendo como A'lvaro Pais havia de falar com ele algumas cousas de sua honra e servic,o e que se fosse ver quando cavalgasse pela vila, porquanto per azo de sua doenc,a na~o podia ir onde ele pousava. O Mestre, por saber que era, na~o tardou muito de ir ala', e foi-lhe falar a sua pousada. E sendo ambos em lugar apartado, comec,ou A'lvaro Pais de razoar todo o que dissera ao conde de Barcelos, e a resposta de escusa que em ele achara, e que depois viera a cuidar que nenhum outro havia no reino que mais razo~es tivesse pera o fazer que ele: - Primeiramente, disse A'lvaro Pais, por vo's serdes irma~o del-rei, a que sua desonra mais deve doer que outro nenhum. A segunda, porque fostes per azo dele e da rainha preso e posto em tal perigo como todos sabem; e que porque na~o fosse sena~o por segurar vossa vida, que nunca ha'-de ser segura enquanto o conde Joa~o Fernandes for vivo, por isso somente o devi'eis fazer, ca pois el-rei agora e' morto usara~o mais de sua maldade. E receando-se de vo's, que bem sabem que disto deveis ter mor sentido que outra pessoa, sempre vos buscara~o azo e caminho per hu vossa vida seja cedo finda. E pois que vinganc,a deste feito a nenhum outro mais pertence que a vo's, fazendo-o da guisa que vos eu digo, mostrareis em elo grande fac,anha, e muito de nembrar aos que depois vierem, em tanto que nem uma cousa de louvor antre os homens seria agora achada que fosse igual, nem parelha desta. O Mestre, ouvindo suas boas e muitas razo~es com grande vontade que delo havia, bem outorgava de o fazer. Mas eram-lhe presentes tais e ta~o grandes du'vidas que todolos caminhos pera o poer em obra eram a ele escuros com grande empachos, especialmente dizendo o Mestre que quem se a tal feito houvesse de aventurar, mormente dentro na cidade, cumpria ter alguma ajuda do povo, por azo do cajom que se recrescer podia. A'lvaro Pais, com desejo que havia, mostrava ao Mestre serem todalas razo~es ta~o ligeiras pera o acabar como se fosse um pequeno feito. E quanto a ajuda do povo em que o Mestre falou muito, respondeu ele e disse que se o ele fazer quisesse, que ele lhe oferecia a cidade em sua ajuda, entendendo de o fazer assim. O Mestre, cobic,oso de honra per sua ardente natureza e grande corac,a~o, movido pelos ditos dele determinou de o poer em obra. O homem bom quando lhe ouviu dizer que todavia queria poer ma~o em tal feito, foi ta~o ledo que mais ser na~o po^de. E assim como chorando com prazer, se afastou dele um pouco olhando-o, e disse: - E e' isto verdade, filho, senhor, que vo's ta~o boa cousa como aquesta quereis fazer? - Certamente, disse o Mestre, sim. E na~o o leixaria de acabar por cousa que avir pudesse! Enta~o se chegou a ele A'lvaro Pais e beijou-o no rosto dizendo: - Ora vejo eu filho, senhor, a diferenc,a que ha' dos filhos dos reis aos outros homens! Comec,aram estonce de falar muito como se melhor podia azar sua morte e per que guisa. E depois de grande espac,o que em isto houveram falado, despediu-se o Mestre e foi-se pera sua pousada. 7 - O Andeiro volta a Lisboa, e ao poder Como o conde Joa~o Fernandes veio ao saimento del-rei, e o Mestre foi ordenado por fronteiro em riba d'Odiana. Por quanto dissemos do conde Joa~o Fernandes que na naoite que se el- rei finou partiu mui trigoso pera seu condado, receando-se `aquela hora de receber dano por o que feito tinha, bem podem alguns dizer neste ponto como foi depois ousado vir ao saimento onde foram juntos tantos muitos mais senhores e fidalgos dos que eram presentes quando el-rei morreu, pois se de alguns tanto receava? Ca muito poucos eram em Lisboa `aquela saza~o que se ele finou porque, como vieram das vodas com a rainha, cada uns se foram pera suas terras e alcaidarias, assim como Gonc,alo Vasques de Azevedo pera Santare'm dhu era alcaide e tinha seus bens, e assim outros muitos. Onde sabei que asseim aconteceu que ele receando-se e com temor veio; e quando a rainha escreveu a todolos fidalgos que viessem ao saimento e chegou a carta ao conde Joa~o Fernandes, sua mulher lhe contradisse muito tal vinda, pedindo-lhe por merce^ que a escusasse, ca o na~o entendia por seu proveito. E ele, na~o curando de seu conselho, partiu pera Lisboa e chegou a Santare'm, e foi pousar com Gonc,alo Vasques de Azevedo, muito seu amigo segundo mostranc,a de fora, o qual o recebeu mui bem, e comec,ou de o prasmar porque trazia preto e na~o burel como os outros, e fez-lho enta~o vestir. O conde lhe perguntou se havia de ir ao saimento e ele respondeu que na~o, dando suas coloradas escusas; mas a verdade era que ele suspeitava o que depois aconteceu, e na~o queria ver em tal alvoroc,o por na~o saber o que se havia de seguir. Pore'm conselhou-lhe que na~o fosse la'. O conde, pero se receasse de algumas pessoas, de nenhum se tanto temia em sua vontade como do Mestre de Avis irma~o del-rei; mas este receio dele e dos outros na~o era pore'm privanc,a de fala mas leda conversac,a~o e mostranc,a de bem querer. E se alguma cousa se ele receava em vida del-rei D. Fernando, e muito mais quando ele morreu, agora ia ja' cobrando mais segura vontade, entendendo que cada um de tal feito perderia sentido por os muitos cuidados que se a todos recreciam, comec,ando-se mundo novo. E com esta fouteza partiu estonce de Santare'm sem crendo nenhum contrairo que lhe avir pudesse. Desi er fortuna lho fazia mais largo entender porque ja' tinha ordenado de o cedo oferecer `a morte. E chegou a Lisboa onde ja' achou muitos que vinham ao saimento. E, bem recebido de todos, foi em gram privanc,a e gasalhado da rainha, desembargando com ela todolos desembargos do reino. E como o saimento foi feito, entrou logo a rainha em conselho com os senhores, por falar nos trautos que antre os reis havia, os quais diziam que el-rei de Castela queria quebrar e juntava gentes pera entrar no reino. Foi acordado per a rainha e per todolos que hi eram que o reino se defendesse, querendo el-rei de Castela vir a ele; e na~o lhe obedecessem em outra guisa salvo naquelas que nos trautos era conteu'do; e que, pois todos ali eram juntos, que ordenassem logo as frontarias e quais estivessem em elas e cada um com quantas lanc,as; e foi assim de feito que foram logo repartidas as comarcas, e ordenado ao Mestre as terras do Mestrado e certas vilas e castelos darredor, dando-lhe logo em escrito todolos que com ele haviam de guardar, e o desembargo do soldo para eles. 8 - O Mestre hesita Como foi ordenada a morte do conde Joa~o Fernandes e como o Mestre partiu de Lisboa sem levando tenc,a~o de o matar Buscadas as razo~es dos que livros fizeram desta histo'ria per testemunho daqueles que presentes foram, segundo todos pela mor parte dizem, o Mestre como teve acordado com A'lvaro Pais de matar o conde Joa~o Fernandes, logo falou este segredo com o conde de Barcelos D. Joa~o Afonso e com Rui Pereira e outros, os quais lhe certificaram que seriam prestes com ele quando em elo quisesse poer ma~o. E enquanto a rainha ordenava suas cousas sobre o regimento e percebimento do reino, em que o Mestre pore'm sempre estava, ia ele muitas vezes a casa de A'lvaro Pais, algumas horas com o conde e outras adeparte, falar com ele sobre a morte do conde Joa~o Fernandes, e especialmente como se poderia haver a ajuda do povo por sua parte. A'lvaro Pais, muito talentoso de ver tal feito acabado, todavia lhe certificava que sim; na~o que ele descobrisse a nenhum tal segredo, mas entendia como era certo que a na~o boa vontade que as gentes tinham `a rainha e ao conde os faria todos demover contra eles, como vissem lugar e tempo azado. E acordaram que pera se todo melhor fazer, que tanto que o Mestre chegasse aos pac,os e comec,asse em esto de poer ma~o, que logo Gomes Freire seu pajem, em cima do cavalo em que andava, comec,asse de vir rijo pela vila, bradando ata' a casa de A'lvaro Pais, dizendo altas vozes que acorressem ao Mestre de Avis que o matavam. E que enta~o sairia ele com os seus, em maneira de acorro, chamando quantos achasse pelas ruas, os quais se iriam com ele de boa mente como ouvissem tal apelido, e que desta guisa se juntaria toda a cidade em sua ajuda. Falado desta maneira e acordado de se fazer assim, foi o Mestre desembargado de todo e dadas cartas quejendas cumpriam, e ele espedido da rainha pera partir. Ora aqui desvairam alguns autores sobre a partida do Mestre, e dizem assim: uns contam que ele fingiu que se partia aquele dia, como de feito partiu, por o conde Joa~o Fernandes segurar mais dele, se algum receio tinha, e o Mestre tornar em outro dia e o achar mais despercebido e na~o ata~o acompanhado, e que A'lvaro Pais se avisasse em tanto de sua parte. Outros afirmam sua partida per outro modo, e deste noz praz mais, dizendo que, na~o embargando que o Mestre ficasse com A'lvaro Pais de poer em tal feito ma~o da guisa que ouvistes, que ele receava muito, depois, de o fazer, por estas seguintes razo~es: A uma, porque tais hi houve com que ele falou, que se escusaram delo quando o houve de poer em obra, temendo-se da rainha, que tinha el-rei de Castela por sua parte, que lhe podia depois azar sua desonra e morte; salvo se foi Rui Pereira e alguns seus do Mestre, a que ele esto descobrira. Desi, duvidando muito o Mestre da ajuda do povo se na~o seguir como dizia A'lvaro Pais, ou a tempo que na~o prestasse, era posto em gram pensamento; pore'm a principal sobre todas era o grande aguardamento de muitos e bons fidalgos que sempre acompanhavam com o conde Joa~o Fernandes, tal como Martim Gonc,alves de Atai'de, e Joa~o Afonso Pimentel, e Pe^ro Rodrigues da Fonseca, e Fermand'Afonso de Miranda e outros, e bem trinta escudeiros seus de cote. Assim que, cuidadas bem tais razo~es, na~o embargando seu ardido e boa vontade, foi-lhe mui duvidoso de o comec,ar. E partiu da cidade depois de comer e foi dormir a Santo Anto'nio, uma aldeia que sa~o dhi tre^s le'guas, sem levando ja' nenhuma tenc,a~o de matar o conde. Ele ali tornou a cuidar como esta cousa fora falada com tantos, e que per ventura estonce ou depois alguns, por cobrar grac,a da rainha e isso mesmo do conde Joa~o Fernandes, o podiam dizer a cada um deles; da qual cousa descoberta se seguia a ele e aos seus gram cajom e perda e per essa guisa a todolos que foram em tal conselho. E cuidando bem isto comec,ou de crescer em ele um esforc,ado desejo com firme propo'sito de em outro dia matar o conde, poendo-se a qualquer ventura que aqueeecer pudesse. E por tirar suspeita de sua tornada chamou logo Fernand'A'lvares de Almeida, um cavaleiro da Ordem e vedor de sua casa e disse: - Tornai-vos logo dormir a Lisboa e fazei-me de manha~ prestes de jantar. E dizei `a rainha que eu entendo la' de tornar porque me parece que na~o vou desembargado como cumpre. E ele partiu logo e chegou alto sera~o `a cidade; pore'm ainda falou `a rainha e ao conde o porque vinha, e como em outro dia o Mestre havia de tornar porque lhe na~o parecia que na~o ia desmbargado como cumpria. A rainha e o conde responderam que tornasse muito em boa hora, que ele haveria desembargo como chegasse. -- Lopes, Ferna~o, Histo'ria de uma Revoluc,a~o, Primeira Parte, "Cro'nica de El-Rei D. Joa~o I de Boa Memo'ria", 2.&, Publicac,o~es Europa-Ame'rica, Lisboa 1990, pp. 94-99 .. Jose' Rodrigues Migue'is Pa'scoa Feliz - Sinto-me bem nesta cadeia. E' um belo edifi'cio claro, em pavilho~es de dois andares, isolados no meio duma grande cerca arborizada, que um alto muro separa, julgo eu, de caminhos e terras cultivadas. Nenhum rumor chega de fora. `As vezes, vou ate' junto desse muro, que a hera muito densa envolve de poesia, e, numa sombra repousante e fresca, abandono-me a ouvir os pequenos murmu'rios da terra e do ar - uma folha que tomba, um pa'ssaro que tila, um insecto que zumbe, um gorgolejo de a'gua - e assim levo muitas horas do meu dia, meditando e escrevendo, como os frades antigos, ate' que um toque de sineta me venha chamar para a comida ou para o recolher. Tudo me parece raro, novo e extraordina'rio. So' agora descubru o oculto sentido de muitas coisas - e mais pela emoc,a~o que me provocam do que pelos jui'zos que formulo. Assim, depois dos meus erros e crimes, pergunto a mim mesmo se sera' legi'timo viver com tanta calma e despreocupac,a~o: um criminoso na~o deveria ter dores, ser torturado? A punic,a~o e' apenas isto? Sim, tenho ha' muito a impressa~o de que vivo num sonho. A vida corre com uma serenidade impressionante. Penso quanto, noutro tempo, eram felizes os homens a quem se condedia o direito de fugir, como eu fugi, afinal, `a vida angustiosa do mundo. Quase me julgo feliz. E porque na~o? A cadeia na~o e' como eu supunha, nem o que se diz la' fora. Nada nos falta, tratam-nos bem, embora vivamos numa quase completa solida~o. Isto a mim agrada-me, de resto: aborrec,o o convi'vio dos homens. So' na apare^ncia os considero meus semelhantes. Aqui, sou apenas um nu'mero: o 28. Vejo agora quanto a criminologia tem progredido no sentido da mais ampla liberdade: cada qual faz o que quer - ou na~o faz nada. Muitos presos passam os dias metidos na cama. O trabalho deixou de ser obrigato'rio. A regenerac,a~o do criminoso obte'm-se agora, ao que parece, por uma forma esponta^nea, a que eu, se da~o licenc,a, chamaria a "psicoterapia da indulge^ncia". Toda a casa e' irrepreensivelmente asseada. O meu quarto e' branco, limpo, tem um tecto alto e uma enorme janela sem grades, donde enxergo um vasto panorama de pinhais e terras de lavoura. Na~o posso deixar de registar, no entanto, um facto muito estranho: `as vezes, durante a noite (eu durmo pouco e tenho o sono leve), sobressalto-me ouvindo gritos, discusso~es, gemidos, um rumor de luta e de pancadas, e mesmo um estilhac,ar de vidros... A primeira vez que tal aconteceu, cobri-me de suores e fiquei todo arrepiado. Receei que se aproveitassem da noite para nos aplicar um tratamento um pouco rude. Como tudo se calou, tornei a adormecer. O caso repetiu-se, e cheguei a julgar-me vi'tima de alguma ilusa~o. Porque gritavam? Intrigado, ergui- me va'rias vezes para escutar, mas acabei felizmente por me desinteressar do que se passa nesta grande casa de aspecto misterioso. Sa~o presos que se revoltam, ou que brigam, e a quem aplicam penas corporais? Na~o sei. Renuncio a sabe^-lo. Ningue'm me da', nem eu pec,o, explicac,o~es. Nada me importa, os outros na~o existem para mim... Que fac,am como eu: calo-me, obedec,o, vivo tranquilamente. De que serve a liberdade? Livre, o comem corre ao precipi'cio. Outro facto que de comec,o me indispo^s: na~o me deixam ler os jornais, nem mesmo os antigos, onde poderia encontrar certos dados cuja falta me perturba. Que tera' dito de mim a grande imprensa? Na~o tenho noti'cias do que vai pelo mundo. Na~o sei mesmo onde me encontro. Vivo como um cenobita. Isto e' bom. O que desta gente me separa e' o receio de ser diferente, um outro. Oh, este horror de sentir a realidade fugir sob os meus pro'prios passos! Trabalhosamente, recomponho o "Eu", que a presenc,a dos outros dissipa e confunde. Isto e' claro e horri'vel... Muitas vezes, subitamente, parece que deixo de ser eu, e a pro'pria ideia do meu crime se obscurece, o meu passado e' outro, como se uma forc,a poderosa me arrastasse para um novo plano da existe^ncia. Enta~o, fujo e luto comigo, a so's, desesperado. O isolamento e a calma da prisa~o permitem-me pensar melhor e ordenar tantas recordac,o~es. Embebido em mim mesmo, sinto arder, mais vivo, o meu poder de concepc,a~o, e ainda espero compor alguns volumes de ana'lise introspectiva. Vou meter o Nietzsche num chinelo. Penso `as vezes com piedade na insensatez dos que lutam apaixonadamente pela vida livre; chego a rir do meu pro'prio passado, eu, que ja' me deixei arrastar pelo remorso e pela dor. Agora sinto-me perfeitamente sereno. Na~o imaginam o que isto representa para mim! Estou sentado a escrever; sinto um sopro de Primavera vir de fora, pela janela aberta, nos raios do sol, e ouc,o na cerca o ramalhar das a'rvores cobertas de verdura nova, que o vento acaricia brandamente. Vozes... Tambe'm um sentimento novo de alegria me agita o corac,a~o. Toda a gente aqui tem, para mim, defere^ncias imrpessionantes. So' alguns dos companheiros, pobres na'ufragos que passeiam como eu na cerca, parecem querer `as vezes provocar-me. Que mal lhe fiz? Estranhos tipos a quem a clausura parece ter roubado o senso! Dizem coisas perfeitamente infantis e sem sentido; mas os guardas que nos vigiam levam-nos logo para longe de mim. Na~o me admira que estejam loucos, se, como se julga, o isolamento produz graves afecc,o~es, mesmo em quem foi sempre equilibrado. Sim, a solida~o e' um privile'gio de raros, o domi'nio dos fortes! Uns aproximam-se para me fazerem confide^ncias absurdas ou monstruosas. Um declarou chamar-se Iva^nov e ser domador de leo~es: e' um pobre raqui'tico, que mal tem nas pernas. Outro jura-me ser o Imperador Guilherme, e estar aqui esperando que o Hindemburgo o venha buscar para tomar Paris de assalto. Provavelmente sa~o as alcunhas que outrora lhes deram, e com as quais as suas imaginac,o~es sobreexcitadas compuseram lendas... Outros insultam-me ou segredam-me obscendidades, aventuras de amor que sa~o de arrepiar, ocorridas aqui dentro, com mulheres misteriosas que ningue'm sabe donde ve^m nem para onde va~o. E ha' os que me fazem gestos lascivos ou provocadores, de longe, por entre as a'rvores da cerca. Volto-lhes as costas, com indiferenc,a. Nem ja' sequer me causam piedade. Porque os na~o metem numa enxovia? Recebo poucas visitas e, coisa estranha, na~o reconhec,o algumas das pessoas que se dizem das minhas relac,o~es. Interrogam-me, invocam nomes, datas, olham-me com espanto e curiosidade. Com franqueza, irritam-me. `As vezes trato-as mal. A impressa~o que me fica e' de te^- las conhecido, sim, mas numa vida anterior de que me na~o resta lembranc,a viva... Ha' certos enigmas contra os quais luto em va~o. Sa~o talvez pessoas que se interessam pelo meu "caso": romancistas, quem sabe, ou psico'logos. Deixa'-lo. Minha mulher tambe'm vem, `as vezes na companhia de estranhos. Faz-me do'. Olha-me com tristeza e com receio, como se eu estivesse transtornado. Veste de escuro. Trabalha decerto para comer, e tem os olhos pisados. Agarra-se de repente a mim, a soluc,ar, e diz-me: "Lembra-te! Lembra-te!..." Oh, meu Deus, estas cenas perturbam-me, e eu na~o posso, na~o posso mais! Sinto que perco o equili'brio... Deixem-me so'! Deixem-me so'! Que queres tu que eu recorde? Porque^ teimam todos que me lembre? Que me lembre - de que^? de quem? Recebo-a, pois, sem nenhum entusiasmo. Imaginem que `as vezes me vem supreender num dia de inspirac,a~o ou de trabalho: procuro despacha'-la o mais depressa que posso. As mulheres imaginam que no's devemos sacrificar os mais altos fins da existe^ncia `as futilidades sentimentais, ou `a recordac,a~o do que passou - do que deixou de ser. Quero-me so' com o meu presente. O passado na~o me importa. E' bom adormecer com a certeza de que "amanha~" sera' uma coisa diferente. Porventura o eu de hoje continua o de ontem? O passado na~o existe, e' uma ideia que alteramos a nosso gosto. Cada dia que nasce traz uma vida nova. Entre no's tudo acabou. Tenho pena dela. Mas porque na~o se divorcia? As mulheres na~o compreendem certas coisas... Se encontrasse um marido honesto e dedicado, ainda podia ser feliz, e eu ficava contente. Como eu consigo ja' na~o ter ciu'mes! E acreditem: estimo-a muito. Pobre Lui'sa!... E' preciso ser puro. Mas ela na~o entende! O director da cadeia e' muito ama'vel para mim. Na~o sei que lhe fiz. Tem comigo atenc,o~es que na~o posso esquecer. Anda sempre de bata muito branca. Interroga-me `as vezes demoradamente, e ja' conseguiu reavivar- me a lembranc,a de certas coisas que eu julgava ter esquecido para sempre, talvez por serem ta~o banais. E fa'-lo de tal modo que na~o me atrevo a resistir-lhe. - Ve^s tu? - disse-me ontem de manha~, sentado na minha cama. - Ja' conseguiste recordar coisas bem sugestivas. Temos de continuar! Prometi mostrar-lhe este manuscrito, logo que o tivesse acabado. (E' a revisa~o do que levei ao tribunal.) - Pois sim. Mas trabalha devagar. E escreve tudo - tudo! - E' impossi'vel. Ha' coisas que eu na~o consigo esclarecer. - Mas faze um esforc,o. Talvez eu possa ajudar-te. E' para teu bem. - Mas eu na~o quero sair daqui! Acorda-me de noite, sem motivo aparente, para me fazer certas perguntas. Mostra-me retratos, conta-me incidentes que me parece ter ja' lido algures... - Ha's-de curar-te - diz. - Hei-de acabar por te restituir a memo'ria completa de ti mesmo! - E de repente: - Quem era o Abi'lio? Estremec,o. O Abi'lio... Uma angu'stia indefini'vel: - Espere! Espere! Eu lembro-me... Conheci um... - Quem era? Onde vivia? O Abi'lio... Eu sabia, eu sabia! Mas e' impossi'vel distinguir... Eu quero, mas ha' um muro que me separa na~o sei de que^... Uma angu'stia, como se dentro de mim um animal lutasse contra a minha vontade... - Na~o posso! Na~o posso! Na~o quero... `Aquele simples nome, tudo se convulsiona em mim. - Ha' um me^s na~o conhecias este nome. Hoje conhece-lo? - Conhec,o... - Obrigado. Obrigado - porque^? Que interesse tem ele nisso? Que lhe importa o que adormeceu ca' dentro? Detesto que me fac,am perguntas. Eu ja' sofri. Ja' fui um descontente, um revoltado, se quiserem. Hoje vivo serenamente. A serenidade e' a maior virtude da intelige^ncia. O que houve em mim foi um simples conflito dos meios e dos fins. Todo o meu drama se resume nisto. Na~o discutam se sou mau ou bom. Os actos sa~o bons ou maus, na~o segundo a vontade, mas segundo os efeitos. E ha' fatalidades que nos impelem, atrave's do mal, para um destino de beleza perfeita. A ideia do mal faz-me pensar na Sociedade: estamos quites! Nada fez por mim, nada lhe devo, vivi `a margem dela como um cardo `a beira dum caminho. Tambe'm a na~o acuso. Na~o passa duma abstracc,a~o para que apela quem ja' nada espera de si mesmo... Na~o ha' sena~o indivi'duos. (Verdadeiramente, so' eu existo, eu e estes pensamentos.) E todos exigimos dela alguma coisa! Mas porque hei-de eu pensar no mundo? E' um ha'bito que fica. Detesto a vida activa! Os gestos que fac,o, os passos que dou, perturbam-me a vida interior, que e' o meu prazer. Esquecimento, quietac,a~o! Doutro, na~o me olhe assim! Na~o me pergunte mais nada!... Tenho amor a esta casa onde adquiri a certeza definitiva de que existo, porque penso. Nesta hora solene em que revejo, comovido, a minha biografia, para que hei-de mentir? Eu sou o "homem que obedeceu". Na~o me considerem pois um criminoso. -- Migue'is, Jose' Rodrigues, Pa'scoa Feliz, 5.& ed., Editorial Estampa, Lisboa 1981, pp. 19-27 .. Pe^ro Vaz de Caminha Carta a el-rei dom Manuel - SENHOR, posto que o capita~o-mor desta vossa frota e assim os outros capita~es escrevam a Vossa Alteza a nova do achamento desta vossa terra nova, que se ora nesta navegac,a~o achou, na~o deixarei tambe'm de dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que para o bem contar e falar o saiba pior que todos fazer. Mas tome Vossa Alteza minha ignora^ncia por boa vontade, a qual, bem certo, creia que por afremosentar nem afear haja aqui de po^r mais do que aquilo que vi e me pareceu. Da marinhagem e singraduras do caminho na~o darei aqui conta a Vossa Alteza, porque o na~o saberei fazer e os pilotos devem ter esse cuidado. E, portanto, Senhor, do que hei-de falar comec,o e digo que a partida de Bele'm, como Vossa Alteza sabe, foi segunda-feira, 9 de Marc,o. E sa'bado, 14 do dito me^s, entre as 8 e 9 horas, nos acha'mos entre as Cana'rias, mais perto da Gra~ Cana'ria. E ali anda'mos todo aquele dia, em calma, `a vista delas, obra de tre^s ou quatro le'guas. E domingo, 22 do dito me^s, `as 10 horas, pouco mais ou menos, houvemos vista das ilhas do Cabo Verde, isto e', da ilha de S. Nicolau, segundo dito de Pe^ro Escolar, piloto. E a noute seguinte, `a segunda-feira, quando lhe amanheceu, se perdeu da frota Vasco d'Atai'de, com a sua nau, sem ai' haver tempo forte nem contrairo para poder ser. Fez o capita~o suas dilige^ncias para o achar, a umas e a outras partes, e na~o apareceu mais. (Terc,a-feira, 21 de Abril de 1500. Sinais de terra) E assim seguimos nosso caminho por este mar, de longo, ate' terc,a-feira d'oitavas de Pa'scoa, que foram 21 dias d'Abril, que topa'mos alguns sinais de terra, sendo da dita ilha, segundo os pilotos diziam, obra de 660 ou 670 le'guas, os quais eram muita quantidade d'ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho e assim outras, a que tambe'm chamam rabo d'asno. (Quarta-feira, 22 de Abril) E `a quarta-feira seguinte, pela manha~, topa'mos aves, a que chamam fura-buchos. E neste dia, a horas de ve'spera, houvemos vista de terra, isto e', primeiramente d'um grande monte, mui alto e redondo, e d'outras serras mais baixas a sul dele e de terra cha~ com grandes arvoredos, ao qual monte alto o capita~o po^s nome o Monte Pascoal e `a terra a Terra de Vera Cruz. Mandou lanc,ar o prumo, acharam 25 brac,as, e, ao sol-posto, obra de 6 le'guas de terra, surgimos a^ncoras em 19 brac,as; ancoragem limpa. Ali fica'mos toda aquela noute. E `a quinta-feira, pela manha~, fizemos vela e seguimos direitos `a terra e os navios pequenos diante, indo por 17, 16, 15, 14, 13, 12, 10 e 9 brac,as ate' meia le'gua de terra, onde todos lanc,a'mos a^ncoras em direito da boca dum rio. E chegari'amos a esta ancoragem `as 10 horas, pouco mais ou menos. E dali houvemos vista d'homens, que andavam pela praia, de 7 ou 8, segundo os navios pequenos disseram, por chegarem primeiro. Ali lanc,a'mos os bate'is e esquifes fora e vieram logo todos os capita~es das naus a esta nau do capita~o-mor e ali falaram. E o capita~o mandou no batel, em terra, Nicolau Coelho, para ver aquele rio. E, tanto que ele comec,ou para la' d'ir, acudiram pela praia homens, quando dous, quando tre^s, de maneira que, quando o batel chegou `a boca do rio, eram ali 18 ou 20 homens, pardos, todos nus, sem nenhuma cousa que lhes cobrisse suas vergonhas. Traziam arcos nas ma~os e suas setas. Vinham todos rijos para o batel e Nicolau Coelho lhes fez sinal que pusessem os arcos; e eles os puseram. Ali na~o poude deles haver fala nem entendimento que aproveitasse, por o mar quebrar na costa. Somente deu-lhes um barrete vermelho e uma carapuc,a de linho, que levava na cabec,a, e um sombreiro preto. E um deles lhe deu um sombreiro de penas d'aves, compridas, com uma copazinha pequena de penas vermelhas e pardas, como de papagaio. E outro lhe deu um ramal grande de continhas brancas, miu'das, que querem parecer d'aljaveira, as quais pec,as creio que o capita~o manda a Vossa Alteza. E com isto se volveu `as naus por ser tarde e na~o poder deles haver mais fala, por azo do mar. A noute seguinte ventou tanto sueste com chuvaceiros, que fez cac,ar as naus e especialmente a capitana. E `a sexta, pela manha~, `as 8 horas, pouco mais ou menos, por conselho dos pilotos, mandou o capita~o levantar a^ncoras e fazer vela. E fomos de longo da costa, com os bate'is e esquifes amarrados pela popa, contra o norte, para ver se acha'vamos alguma abrigada e bom pouso, onde fica'ssemos para tomar a'gua e lenha, na~o por nos ja' minguar, mas por nos acertarmos aqui. E quando fizemos vela seriam ja' na praia assentados junto com o rio obra de 60 ou 70 homens, que se juntaram ali poucos e poucos. Fomos de longo, e mandou o capita~o aos navios pequenos que fossem mais chegados `a terra e que, se achassem pouso seguro para as naus que amainassem. E, sendo no's pela costa, obra de 10 le'guas donde nos levanta'mos, acharam os ditos navios pequenos um arrecife com um porto dentro, muito bom e muito seguro, com uma mui larga entrada. E meteram-se dentro e amainaram. E as naus arribaram sobre eles. E um pouco ante sol-posto amainaram obra d'uma le'gua do arrecife e ancoraram-se em 11 brac,as. E sendo Afonso Lopes, nosso piloto, em um daqueles navios pequenos por mandado do capita~o, por ser homem vivo e destro para isso, meteu-se logo no esquife a sondar o porto dentro. E tomou em uma almadia dous daqueles homens da terra, mancebos e de bons corpos. E um deles trazia um arco e 6 ou 7 setas. E na praia andavam muitos com seus arcos e setas e na~o lhes aproveitaram. Trouve-os logo, ja' de noute, ao capita~o, onde foram recebidos com muito prazer e festa. A feic,a~o deles e' serem pardos, maneira d'avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem nenhuma cobertura, nem estimam nenhuma cousa cobrir nem mostrar suas vergonhas. E esta~o acerca disso com tanta inoce^ncia como te^m em mostrar o rosto. Traziam ambos os beic,os de baixo furados e metido por eles um osso branco de comprimento duma ma~o travessa e de grossura dum fuso d'algoda~o e agudo na ponta como furador. Metem-no pela parte de dentro do beic,o e o que lhe fica entre o beic,o e os dentes e' feito como roque de xadrez; e em tal maneira o trazem ali encaixado, que lhes na~o da' paixa~o nem lhes estorva a fala, nem comer, nem beber. Os cabelos seus sa~o corredios e andavam tosquiados de tosquia alta mais que de sobre-pente, de boa grandura e rapados ate' por cima das orelhas. E um deles trazia por baixo da solapa, de fonte a fonte para detra's, uma maneira de cabeleira de penas d'ave amarela, que seria de comprimento dum coto, mui basta e mui c,arrada que lhe cobria o toutuc,o e as orelhas, a qual andava pegada nos cabelos, pena e pena, com uma confeic,a~o branda como cera e na~o no era; de maneira que andava a cabeleira mui redonda e mui basta e mui igual, que na~o fazia mi'ngua mais lavagem para a levantar. O capita~o, quando eles vieram, estava assentado em uma cadeira e uma alcatifa aos pe's por estrado, e bem vestido, com um colar d'ouro mui grande ao pescoc,o. E Sancho de Toar e Sima~o de Miranda e Nicolau Coelho e Aires Correa e no's, que aqui na nau com ele imos, assentados no cha~o por essa alcatifa. Acenderam tochas e entraram e na~o fizeram nenhuma menc,a~o de cortesia nem de falar ao capita~o nem a ningue'm. Um deles, pore'm, po^s olho no colar do capita~o e comec,ou d'acenar com a ma~o para a terra e despois para o colar, como que nos dizia que havia em terra ouro. E tambe'm viu um castic,al de prata e assim mesmo acenava para a terra e enta~o para o castic,al, como que havia tambe'm prata, Mostraram-lhes um papagaio pardo, que aqui o capita~o traz, tomaram-no logo na ma~o e acenaram para a terra, como que os havia ai'. Mostraram-lhes um carneiro, na~o fizeram dele menc,a~o. Mostraram-lhes uma galinha, quase haviam medo dela e na~o lhe queriam po^r a ma~o e despois a tomaram como espantados. Deram-lhes ali de comer pa~o e pescado cozido, confeitos, farte'is, mel e figos passados; na~o quiseram comer daquilo quase nada. E alguma cousa, se a provavam, lanc,avam-na logo fora. Trouveram-lhes vinho por uma tac,a, mal lhe puseram a boca e na~o gostaram dele nada nem o quiseram mais. Trouveram-lhes a'gua por uma albarrada; tomou cada um deles um bocado dela e na~o beberam; somente lavaram as bocas e lanc,aram fora. Viu um deles umas contas de rosairo, brancas; acenou que lhas dessem e folgou muito com elas e lanc,ou-as ao pescoc,o e despois tirou-as e embrulhou-as no brac,o; e acenava para a terra e enta~o para as contas e para o colar do capita~o, como que dariam ouro por aquilo. Isto toma'vamos no's assim por o desejarmos; mas, se ele queria dizer que levaria as contas e mais o colar, isto na~o queri'amos no's entender, porque lhos na~o havia'mos de dar. E despois tornou as contas a quem lhas deu. E enta~o estiraram-se assim de costas na alcatifa, a dormir, sem ter nenhuma maneira de cobrirem suas vergonhas, as quais na~o eram fanadas e as cabeleiras delas bem rapadas e feitas. O capita~o mandou po^r `a cabec,a de cada um deles um coxim e o da cabeleira procurava assaz por a na~o quebrar. E lanc,aram lhes um manto em cima e eles consentiram e ficaram e dormiram. (Sa'bado, 25 de Abril) Ao sa'bado, pela manha~, mandou o capita~o fazer vela e fomos demandar a entrada, a qual era mui larga e alta de seis, sete brac,as. E entraram todas as naus dentro e ancoraram-se em cinco, seis brac,as, a qual ancoragem dentro e' ta~o grande e ta~o fremosa e ta~o segura que podem jazer dentro nela mais de 200 navios e naus. E tanto que as naus foram pousadas e ancoradas, vieram os capita~es todos a esta nau do capita~o-mor. E daqui mandou o capita~o Nicolau Coelho e Bertolameu Diis que fossem em terra e levassem aqueles dous homens e os deixassem ir com seu arco e setas, a cada um dos quais mandou dar uma camisa nova e uma carapuc,a vermelha e um rosairo de contas brancas d'osso, que eles levavam nos brac,os, e um cascavel e uma campainha. E mandou com eles para ficar la' um mancebo degradado, criado de D. Joa~o Telo, a que chamam Afonso Ribeiro, para andar la' com eles e saber de seu viver e maneira; e a mim mandou que fosse com Nicolau Coelho. Fomos assim de frecha direitos `a praia. Ali acudiram logo obra de 200 homens, todos nus, e com arcos e setas nas ma~os. Aqueles que no's leva'vamos acenaram-lhes que se afastassem e pusessem os arcos e eles os puseram e na~o se afastavam muito. E, mal tinham posto os arcos, enta~o sa'iram os que no's leva'vamos e o mancebo degradado com eles, os quais, assim como sai'ram, na~o pararam mais, nem esperava um por outro sena~o a quem mais correria. E passaram um rio, que por ai' corre, d'a'gua doce, de muita a'gua, que lhes dava pela braga; e outros muitos com eles. E foram assim correndo ale'm do rio entre umas moutas de palmas, onde estavam outros, e ali pararam. E, naquilo, foi o degradado com um homem que, logo ao sair do batel, o agasalhou e levou-o ate' la'. E logo o tornaram a no's. E com ele vieram os outros que no's leva'mos, os quais vinham ja' nus e sem carapuc,as. E enta~o se comec,aram de chegar muitos. E entravam pela beira do mar para os bate'is ate' que mais na~o podiam. E traziam cabac,os d'a'gua e tomavam alguns barris que no's leva'vamos e enchiam-nos d'a'gua e traziam-nos aos bate'is. Na~o que eles de todo chegassem a bordo do batel, mas junto com ele, lanc,avam-nos da ma~o e no~s toma'vamo-los. E pediam que lhes dessem alguma cousa. Levava Nicolau Coelho cascave'is e manilhas e a uns dava um cascavel e a outros uma manilha, de maneira que, com aquela encarna, quase nos queriam dar a ma~o. Davam-nos daqueles arcos e setas por sombreiros e carapuc,as de linho e por qualquer cousa que lhes homem queria dar. Dali se partiram os outros dous mancebos que na~o os vimos mais. Andavam ali muitos deles ou quase a maior parte que todos traziam aqueles bicos d'osso nos beic,os. E alguns, que andavam sem eles, traziam os beic,os furados e nos buracos traziam uns espelhos de pau que pareciam espelhos de borracha. E alguns deles traziam tre^s daqueles bicos, a saber: um na metade e os dous nos cabos. E andavam ai' outros quartejados de cores, isto e': deles a metade da sua pro'pria cor e a metade de tintura negra, maneira d'azulada, e outros quartejados d'escaques. Ali andavam entre eles tre^s ou quatro moc,as, bem moc,as e bem gentis, com cabelos muito pretos, compridos, pelas espa'duas; e suas vergonhas ta~o altas e ta~o c,arradinhas e ta~o limpas das cabeleiras que de as no's muito bem olharmos na~o ti'nhamos nenhuma vergonha. Ali, por enta^o, na~o houve mais fala nem entendimento com eles por a berberia deles ser tamanha que se na~o entendia nem ouvia ningue'm. Acena'mos-lhes que se fossem e assim o fizeram e passaram-se ale'm do rio. E sai'ram tre^s ou quatro homens nossos dos bate'is e encheram na~o sei quantos barris d'a'gua, que no's leva'vamos. E torna'mo-nos `as naus. E, em no's assim vindo, acenaram-nos que torna'ssemos e torna'mos. E eles mandaram o degradado e na~o quiseram que ficasse la' com eles, o qual levava uma bacia pequena e duas ou tre^s carapuc,as vermelhas para dar la' ao senhor, se o ai' houvesse. Na~o curaram de lhe tomar nada e assim o mandaram com tudo. E enta~o Bertolameu Diis o fez outra vez tornar, que lhes desse aquilo. E ele tornou e deu aquilo em vista de no's `aquele que o da primeira agasalhou; e enta~o veio e trouvemo-lo. Este que o agasalhou era ja' de dias e andava todo, por louc,ainha, cheio de penas, pegadas pelo corpo, que parecia assetado como S. Sebastia~o. Outros traziam carapuc,as de penas amarelas e outros de vermelhas e outros de verdes. E uma daquelas moc,as era toda tinta, de fundo a cima, daquela tintura, a qual, certo, era ta~o bem feita e ta~o redonda e sua vergonha, que ela na~o tinha, ta~o graciosa, que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhe tais feic,o~es, fizera vergonha, por na~o terem a sua como ela. Nenhum deles na~o era fanado, mas todos assim como no's. E com isto nos torna'mos e eles foram-se. `A tarde saiu o capita~o-mor em seu batel como todos no's outros e com os outros capita~es das naus em seus bate'is a folgar pela bai'a, a cara~o da praia, mas ningue'm saiu em terra por o capita~o na~o querer, sem embargo de ningue'm nela estar. Somente saiu ele com todos em um ilhe'u grande, que na bai'a esta', que de baixa-mar fica mui vazio, mas e' de todas partes cercado d'a'gua, que na~o pode ningue'm ir a ele sem barco ou a nado. Ali folgou ele e todos no's outros bem uma hora e meia. E pescaram, ai' andando marinheiros com um chinchorro, e mataram pescado miu'do na~o muito. E enta~o volvemo-nos `as naus ja' bem noute. (Domingo, 26 de Abril) Ao domingo de Pascoela, pela manha~, determinou o capita~o d'ir ouvir missa e pregac,a~o naquele ilhe'u. E mandou a todos os capita~es que se corregessem nos bate'is e fossem com ele; e assim foi feito. Mandou naquele ilhe'u armar um espera'vel e dentro nele alevantar altar mui bem corregido e ali com todos no's outros fez dizer missa, a qual disse o padre frei Anrique em voz entoada e oficiada com aquela mesma voz pelos outros padres e sacerdotes que ali todos eram, a qual missa, segundo meu parecer, foi ouvida por todos com muito prazer e devoc,a~o. Ali era com o capita~o a bandeira de Cristo, com que saiu de Bele'm, a qual esteve sempre alta, `a parte do Evangelho. Acabada a missa, desvestiu-se o padre e po^s-se em uma cadeira alta e no's todos lanc,ados por essa areia. E pregou uma solene e proveitosa pregac,a~o da histo'ria do Evangelho. E, em fim dela, tratou de nossa vinda e do achamento desta terra, conformando-se com o sinal da cruz, sob cuja obedie^ncia vimos, a qual veio muito a propo'sito e fez muita devoc,a~o. Enquanto estivemos `a missa e `a pregac,a~o, seriam na praia outra tanta gente, pouco mais ou menos como os d'ontem, com seus arcos e setas, os quais andavam folgando e olhando-nos, e assentaram-se. E, despois d'acabada a missa, assentados no's `a pregac,a~o, alevantaram-se muitos deles e tangeram corno ou buzina e comec,aram a saltar e danc,ar um pedac,o. E alguns deles se metiam em almadias, duas ou tre^s, que ai' tinham, as quais na~o sa~o feitas como as que eu ja' vi; somente sa~o tre^s traves, atadas juntas. E ali se metiam quatro ou cinco ou esses que queriam, na~o se afastando quase nada da terra sena~o quanto podiam tomar pe'. Acabada a pregac,a~o, moveu o capita~o e todos para os bate'is, com nossa bandeira alta; e embarca'mos e fomos assim todos contra terra para passarmos ao longo por onde eles estavam, indo Bertolameu Diis em seu esquife, por mandado do capita~o, diante, com um pau duma almadia, que lhes o mar levara, para lho dar, e no's todos, obra de tiro de pedra, tra's ele. Como eles viram o esquife de Bertolameu Diis, chegaram-se logo todos `a a'gua, metendo-se nela ate' onde mais podiam. Acenaram-lhes que pusessem os arcos e muitos deles os iam logo po^r em terra e outros os na~o punham. Andava ai' um que falava muito aos outros que se afastassem, mas na~o ja' que m'a mim parecesse que lhe tinham acatamento nem medo. Este, que os assim andava afastando, trazia seu arco e setas e andava tinto de tintura vermelha pelos peitos e espa'duas e pelos quadris, coxas e pernas ate' baixo; e os vazios com a barriga e esto^mago eram da sua pro'pria cor. E a tintura era assim vermelha que a a'gua lha na~o comia nem desfazia; antes, quando sai'a da a'gua, era mais vermelho. Saiu um homem do esquife de Bertolameu Diis. E andava entre eles sem eles entenderem nada nele quanto a para lhe fazerem mal, sena~o quanto lhe davam cabac,os d'a'gua. E acenavam aos do esquife que sai'ssem em terra. Com isto se volveu Bertolameu Diis ao capita~o e viemo-nos `as naus a comer, tangendo trombetas e gaitas, sem lhes dar mais opressa~o. E eles tornaram-se a assentar na praia e assim por enta~o ficaram. Neste ilhe'u, onde fomos ouvir missa e pregac,a~o espraia muito a a'gua e descobre muita areia e muito cascalho. Foram alguns, em no's ai' estando, buscar marisco e na~o o acharam. E acharam alguns camaro~es grossos e curtos, entre os quais vinha um muito grande camara~o e muito grosso, que em nenhum tempo o vi tamanho. Tambe'm acharam cascas de bero~es e d'ame^ijoas, mas na~o toparam com nenhuma pec,a inteira. E, tanto que comemos, vieram logo todos os capita~es a esta nau, por mandado do capita~o-mor, com os quais se ele apartou e eu na companhia. E perguntou assim a todos se nos parecia ser bem mandar a nova do achamento desta terra a Vossa Alteza pelo navio dos mantimentos, para a melhor mandar descobrir e saber dela mais do que agora no's podi'amos saber, por irmos de nossa viagem. E, entre muitas falas que no caso se fizeram, foi por todos ou a maior parte dito que seria muito bem. E nisto conclui'ram. E, tanto que a conclusa~o foi tomada, perguntou mais se seria bom tomar aqui por forc,a um par destes homens para os mandar a Vossa Alteza e deixar aqui por eles outros dous destes degradados. A isto acordaram que na~o era necessa'rio tomar por forc,a homens, porque geral costume era dos que assim levavam por forc,a para alguma parte dizerem que ha' ai' tudo o que lhes perguntam, e que melhor e muito melhor informac,a~o da terra dariam dous homens destes degradados que aqui deixassem do que eles dariam, se os levassem, por ser gente que ningue'm entende; nem eles ta~o cedo aprenderiam a falar para o saberem ta~o bem dizer que muito melhor o estoutros na~o digam, quando ca' Vossa Alteza mandar. E que, portanto, na~o curassem aqui de, por forc,a, tomar ningue'm nem fazer esca^ndalo, para os de todo mais amansar e apacificar, sena~o somente deixar aqui os dous degradados, quando daqui parti'ssemos. E assim, por melhor parecer a todos, ficou determinado. Acabado isto, disse o capita~o que fo^ssemos nos bate'is em terra e ver-se-ia bem o rio quejando era e tambe'm para folgarmos. Fomos todos nos bate'is em terra, armados, e a bandeira connosco. Eles andavam ali na praia, `a boca do rio, onde no's i'amos. E, antes que chega'ssemos, do ensino que dantes tinham, puseram todos os arcos e acenavam que sai'ssemos. E, tanto que os bate'is puseram as proas em tera, passaram-se logo todos ale'm do rio, o qual na~o e' mais ancho que um jogo de mancal. E, tanto que desembarca'mos, alguns dos nossos passaram logo o rio e foram entre eles. E alguns aguardavam e outros se afastavam, mas era a cousa de maneira que todos andavam misturados. Eles davam desses arcos com suas setas por sombreiros e carapuc,as de linho e por qualquer cousa que lhes davam. Passaram ale'm tantos dos nossos e andavam assim misturados com eles, que eles se esquivavam e afastavam-se e iam-se deles para cima, onde outros estavam. E enta~o o capita~o fez-se tomar ao colo de dous homens e passou o rio e fez tornar todos. A gente que ali era na~o seria mais c`aquela que so'ia. E tanto que o capita~o fez tornar todos, vieram alguns deles a ele, na~o por o conhecerem por senhor, ca' me parece que na~o entendem nem tomavam disso conhecimento, mas porque a gente nossa passava ja' para aque'm do rio. Ali falavam e traziam muitos arcos e continhas daquelas ja' ditas e resgatavam por qualquer cousa em tal maneira que trouveram dali para as naus muitos arcos e setas e contas. E enta~o tornou-se o capita~o aque'm do rio e logo acudiram muitos `a beira dele. Ali veri'eis galantes, pintados de preto e vermelho e quartejados assim pelos corpos como pelas pernas, que, certo, pareciam assim bem. Tambe'm andavam entre eles quatro ou cinco mulheres moc,as, assim nuas que na~o pareciam mal, entre as quais andava uma com uma coxa, do joelho ate' o quadril e a na'dega, toda tinta daquela tintura preta e o resto todo da sua pro'pria cor. Outra trazia ambos os joelhos com as curvas assim tintas e tambe'm os colos dos pe's. E suas vergonhas ta~o nuas e com tanta inoce^ncia descobertas que na~o havia ai' nenhuma vergonha. Tambe'm andava ai' outra mulher moc,a com um menino ou menina no colo, atado com um pano na~o sei de que^ aos peitos, que lhe na~o apareciam sena~o as perninhas, mas as pernas da ma~e e o resto na~o traziam nenhum pano. E despois moveu o capita~o para cima, ao longo do rio, que anda sempre a cara~o da praia, e ali esperou um velho que trazia na ma~o uma pa' d'almadia. Falou, estando o capita~o com ele perante todos no's, sem o nunca ningue'm entender nem ele a no's, quanto a cousas que lhe homem perguntava d'ouro, que no's deseja'vamos saber se o havia na terra. Trazia este velho o beic,o ta~o furado, que lhe caberia pelo furado um gra~ dedo polegar. E trazia metido no furado uma pedra verde, ruim, que c,arrava por fora aquele buraco. E o capita~o lha fez tirar a ele na~o sei que diabo falava e ia com ela para a boca do capita~o para lha meter. Estivemos sobre isso um pouco rindo e enta~o enfadou-se o capita~o e deixou-o. E um dos nossos deu-lhe pela pedra um sombreiro velho, na~o por ela valer alguma cousa, mas por mostra. E despois a houve o capita~o, creio para com as outras cousas a mandar a Vossa Alteza. -- Caminha, Pe^ro Vaz de, Carta a el-rei dom Manuel sobre o achamento do Brasil, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, Lisboa 1974, pp. 31-57 .. Fernando Namora Uma mulher afogada - Um aldea~o veio dos lados da serra da Senhora do Circo e falou do acontecimento do seu povo: aparecera uma mulher afogada e o regedor insistia na presenc,a das autoridades da vila. Naquele dia o subdelegado de Sau'de estava doente; olhou de longe essa caminhada por veredas do Diabo e pediu-me que o substitui'sse. A aldeia era no cabo do mundo, quase no pico da serra escalvada, no si'tio da romaria da santa. A gente, de longe, via a montanha nua e cinzenta, sem a'rvores, sem mato, e parecia-nos miragem que algue'm ainda vivesse nessas terras malfadadas. Acompanhei ate' la' o funciona'rio da Justic,a. O aldea~o sentou-se `a beirinha do assento e apoiou-se nas costas do motorista quando o automo'vel arrancou. Ia desnorteado pela velocidade do carro, estendia os olhos e o pescoc,o para na~o confundir caminhos nessa mistura alucinada de a'rvores que fugiam com a estrada. Ele conhecia cada palmo da serra, mas conhecia-a de corac,a~o e olhos serenos, a passou ou do alto do lombo dos jumentos. Foi por isso que so' avisou no u'ltimo momento, apertando deseperadamente o brac,o do motorista: "E' aqui!" Este "aqui" traduzia apenas que na~o podi'amos contar com o carro para o resto da marcha. Dali para cima eram uns atalhos de areia desviando-se das fragas, onde nos espreitavam bandos de gafanhotos da cor da terra ressequida. O automo'vel parou `a sombra de um carvalho. Apeei-me com o funciona'rio, e fica'mos a gozar a perturbac,a~o do campone^s, que se esforc,ava por decifrar o miste'rio do fecho da porta. Senti'amo-nos muito envaidecidos do nosso papel. E'ramos a lei: a lei que tinha um poder ilimitado, na vila ou na aldeola mais gentia, e que pela primeira vez, sob o capuz da minha profissa~o, me impunha uma dignidade oficial. Comec,a'mos a subida. `As vezes, entre as rochas que iam do azul-cinzento ao verde-negro, surgiam milagrosas courelas de sementeira, com umas espigas ralas, a roc,ar o cha~o. O funciona'rio, lavrador de umas va'rzeas, coc,ou o nariz e disse: - Maus si'tios. O campone^s fez-se sombrio. Sa~o, sim senhor. O nosso povo e' um povo maldito. E o mar de a'gua que ha' nas terras do vale, la' em baixo, por onde passa'mos com o automo'vel! Na~o sei que cisma deu nos homens antigos para assentarem um povo nestes cerros, deixando a a'gua e o verde perderem-se la' no fundo. Foi praga. Aos senhores e' que vai custar a ladeira... - O pior e' o calor - disse eu, embora deliciado com a rudeza da paisagem e com a perspectiva de representar um papel dominante enter os aldeo~es embasbacados. Mas lembrei-me de que os meus vinte e tre^s anos me desacreditavam junto da desconfianc,a dos campo'nios e ensaiei por isso um jogo de rugas que disfarc,asse a minha juventude. Foi pensando nisso tudo que fiz uma pergunta brusca e intencional: - Era nova, a mulher? - `A roda dos quarenta - availou o aldea~o. - Vivia so'? - insisti, trocando olhares detectivescos com o funciona'rio com o funciona'rio. Este, `a minha primeira inquiric,a~o, aprestou-se com um cigarro. - Saiba o Sr. Doutro que morava com a irma~. A irma~ casada. O funciona'rio reacendeu o cigarro sem necessidade. Pareceu-me que dava uma subtil importa^ncia `a chama do isqueiro como preparac,a~o do interrogato'rio. Tambe'm ele se sentia feliz por dispor dos receios ou das lamu'rias dos camponeses; tambe'm ele precisava de justificar a sua posic,a~o de representante da autoridade. - Eram amigas? O homem na~o respondeu logo. Escondeu os olhos nas pa'lpebras cheias, tossiu, fechou-se como um caracol. - Eram amigas? Diga! - Saiba o senhor que eram. A mulher caiu no poc,o, na~o ha' que ver. Aquilo foi buscar um balde de a'gua, escorregou e pronto... Devia estar enterrada a estas horas se na~o fossem as parvoeiras do regedor. - Ningue'm falou em suici'dio, na~o...? - intervim novamente. - Na'! A face do homem exprimiu um espanto convincente. O funciona'rio deu-me uma palmada nas costas, com uma su'bita intimidade, e chegou a boca e o bafo avinhado ao meu ouvido: - Sa~o uns manhosos, doutor... Mas no's vamos espreme^-los! Esta'vamos a meia encosta. Os olhos desembarac,avam-se das colinas tristes, abrangendo agora toda a plani'cie da vila. As terras gemiam a'gua, rios ondeavam entre choupos. Era um estonteamento de cor e fertilidade. A vila, la' longe, exibia com garridice os seus pre'dios claros, de telhados vermelhos. Este contraste fazia-me meditar na teimosia rude do povo que nos esperava no cimo da serra, que na~o desistia de lutar com uma terra magra, vivendo num poiso de a'guias, bisonho e bravio, em face da gente socia'vel da planura. Os serranos apareciam na vila uma vez por outra: `as feiras, ao come'rcio, ao me'dico. Neste u'ltimo caso, os meus colegas mais sabidos cediam mutuamente a honra da escolha; ningue'm desejava atormentar os rins galgando as fragas. Eu era o mais novo e aceitava alvoroc,odamente esses servic,os. Quanto mais penosa fosse a viagem, mais sentia a minha profissa~o digna de ser servida. Invejava os que tinham os dias absorvidos pela cli'nica, que chegavam ja' extenuados junto dos doentes. Da primeira vez que fui `a serra, a meio da viagem intermina'vel e como resposta `a minha insiste^ncia em saber "se ainda faltava muito", o meu companheiro disse: "Nem somos gente, a bem dizer, Sr. Doutor. Estes caminhos foram feitos so' para bestas como no's. Uma pessoa de estimac,a~o, como um doutor, nunca devia atrever-se a subir aqui! Deviam deixar morrer este povo, deixar que a semente acabasse." Na~o me queixei mais o resto da jornada e respondi com melindre: "Sou me'dico. Um me'dico e' um me'dico; na~o escolhe doentes nem caminhos." Desta vez, a subida, apesar de feita `a custa das minhas pernas, sabia-me de outro modo. Enternecia-me. A paisagem lenta e descarnada sugeria-me os planaltos acidentados da aldeia da minha infa^ncia, com os moinhos de vento assentes em urzes. Compreendia agora melhor a teima dos camponeses, a euforia da montanha, o sabor da luta com a natureza a'spera. O funciona'rio atalhou as minhas divagac,o~es. Queria saber como no's, me'dicos, poderi'amos destrinc,ar um afogado duma outra morte. Ele tinha suspeitas, tinha um plano, certamente, o seu cara~o abespinhado era de mau agoiro para o sossego dos aldo~es. Aproveitei a pergunta para lhe descrever, com pormenores tenebrosos, a paisagem duma sala anato'mica; diverti-me com a sua expressa~o enjoada, exagerei quanto pude. Na~o me deixou levar a lic,a~o ao fim. No's, me'dicos, e'ramos uns porcalho~es, uns tipos endurecidos. Gosta'vamos de remexer em imundi'cies. Ele, na~o, tinha pavor dos mortos. O campone^s estava ali junto de no's, li'vido, a boca pasmada. O seu pescoc,o esticava de curiosidade, com os tendo~es a furar a pele. Para desfazer os restos de proa do meu companheiro, pintei o horror de um afogado que me haviam distribui'do, para estudo, na Faculdade. Carnes dum verde limoso ensebadas numa gordura abjecta, os cabelos empastados em areia, os olhos comidos pelos peixes. E mutilado das pernas. Um coto de carne ludra, em cima duma mesa anato'mica. O funciona'rio sentou-se, nauseado. O aldea~o tinha a boca a exsudar saliva, os olhos parados. Eu conquistara para sempre a sua aterrorizada admirac,a~o. O funciona'rio da Justic,a limpou o suor com o lenc,o, fazendo vincos na testa, e observou: - E' dura, a medicina! E depois dum trabalho desses, doutor, de volta com sebentices, te^m de se sujeitar `a pasmaceira das aldeias! Na~o, na~o era vida que eu escolhesse. O campone^s espevitou-nos no u'ltimo arranco. E disse, por fim: - Chega'mos. E' ali. Um muro baixo, de pedra solta, uma figueira amarelenta que escondia um grupo lu'gubre de curiosos. Quando nos aproxima'mos, os homens tiraram o chape'u, fechando-se num quadrado defensivo, as mulheres suspenderam as lamentac,o~es. O cada'ver, ao lado do poc,o, fora coberto com uma manta. Destapei o rosto da afogada; formigas, `as centenas, corriam-lhe a pele, gulosas de morte. As mulheres coaram os olhos e desta vez a sua dor tinha uma voz visceral, era a adesa~o da pro'pria carne. As roupas, cingidas ao corpo, escorriam a'gua. Na~o havia sinais de viole^ncia. Repeti a minha observac,a~o, contemporizando com a cobic,a dos assistentes porque eu pro'prio me sentia, perante esses labregos atemorizados, uma espe'cie de feiticeiro medieval... O funciona'rio puxou-me pela manga do casaco e acompanhei-o nas investigac,o~es policiais. Ele estivera `a beira do poc,o, decifrando as a'guas verdes, enquanto eu observava o cada'ver. O poc,o tinha uma escadaria ate' ao ni'vel da a'gua, folhas de alface boiavam `a superfi'cie. Os camponeses apreciavam de longe o miste'rio das nossas pesquisas. Os corpos vergavam-se-lhes de estranhos receios, como se de no's dependesse a vida e amorte, o destino do seu povo. Eles, que na sua maioria eram estranhos `a mulher afogada, reconheciam-se agora colectivamente responsa'veis perante no's dois, aperaltados da vila, dessa vila que dispunha das terras, dos direitos de posse, das de'cimas e dos castigos. O campone^s que nos acompanhara foi mais resoluto. Inclinou-se sobre as a'guas, meditou e disse: - Esta~o ver a alface... Ela tinha vindo da courela com um brac,ado de folhas. E' o que parece... Sim, veio aqui lava'-las, escorregou nas escadas... Na~o e' o que parece, Sr. Dout